Irene Ravache | Glória Pires (foto: divulgação)

Geralmente não gosto de escrever textos ou responder perguntas do tipo “o que esperar da nova novela“. Tanto pode acontecer tudo quanto pode acontecer nada. Por melhor que seja a trama ou o elenco, um exercício de futurologia é inútil (vide os casos recentes de Órfãos da Terra e O Tempo Não Para). Por isso, para a próxima produção da Globo às 18h, resolvi fazer um “o que não esperar de Éramos Seis“, para tentar refrear a expectativa do povo que pretende ver na Globo a mesma novela do SBT que idolatra. A nova produção nem estreou e já há muitos fãs julgando e condenando precocemente sem sequer ter visto nada, tendo apenas como base a versão anterior sem considerar aspectos que devem ser analisados.

A próxima novela das seis da Globo será a quarta versão da história em telenovela diária. Em todas, a base foi o famoso romance de Maria José Dupré, popular nas últimas décadas por ter feito parte da coleção Vaga-lume, da Editora Ática, leitura do ensino fundamental. A primeira versão diária foi em 1967, pela TV Tupi, em preto e branco, adaptada por Pola Civelli, com Cleyde Yáconis (Lola), Silvio Rocha (Júlio), Plínio Marcos (Carlos), Roberto Orosco (Alfredo), Tony Ramos (Julinho) e Guy Loup (Isabel). Eu nunca vi, porque nem era nascido quando passou. Não há registros dessa produção em vídeo, nem fotos, nem muita informação na Internet. Houve anteriormente uma versão na TV Record, em 1958, com Gessy Fonseca e Gilberto Chagas, mas não era diária.

Carlos A. Strazzer, Carlos A. Riccelli, Maria I. Lizandra, Ewerton de Castro, Nicette Bruno e Gianfrancesco Guarnieri (foto: divulgação)

A segunda versão (diária) é de 1977, já colorida, também pela Tupi, adaptada por Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho, com Nicette Bruno (Lola), Gianfrancesco Guarnieri (Júlio), Carlos Augusto Strazzer (Carlos), Carlos Alberto Riccelli (Alfredo), Ewerton de Castro (Julinho) e Maria Isabel de Lizandra (Isabel). Há vários vídeos de capítulos no site da Cinemateca de SP. Um detalhe importante: Silvio e Rubens distanciaram-se muito do livro original, que – como a maioria dos romances adaptados para televisão – não rende uma novela. Os autores tiveram de criar vários personagens e tramas para rechear uma história de mais de 150 capítulos.

Esta foi a primeira novela que vi inteira com a minha família, eu tinha oito anos. Tenho muito carinho por essa produção e uma relação de memória afetiva. Olhando os vídeos, mais de quarenta anos depois, percebo o quanto a produção e a narrativa eram simplórias aos olhos de hoje. A televisão e a linguagem televisiva mudaram muito.

Em 1994, o diretor Nilton Travesso, contratado para cuidar da dramaturgia do SBT, resgatou essa história. Mais precisamente a versão da Tupi de 1977. Tratava-se, portanto, de um remake. No elenco, Irene Ravache (Lola), Othon Bastos (Júlio), Jandir Ferrari (Carlos), Tarcísio Filho (Alfredo), Leonardo Brício (Julinho) e Luciana Braga (Isabel). Silvio de Abreu, então na Globo, vendeu seus direitos sobre a obra para Silvio Santos. Coube a Rubens Ewald Filho ajustar a novela à realidade da televisão dos anos 1990.

Tarcísio Filho, Luciana Braga, Jandir Ferrari, Othon Bastos, Irene Ravache e Leonardo Brício (foto: divulgação)

Sim, na passagem da versão de 1977 para 1994, foram feitos ajustes, Rubens alterou algumas tramas. Normal, já que a TV havia evoluído muito em 17 anos. Eu, confesso, torci o nariz para a novela do SBT. Foi como se tivessem maculado a versão da Tupi que guardava com carinho na lembrança. Por mais que eu ache Irene Ravache extraordinária – e ela é -, em minha opinião, a atriz não bateu a interpretação de Nicette Bruno como a sofrida Dona Lola. Porém, sei que as duas foram maravilhosas.

Este mesmo sentimento invade os corações dos fãs da novela do SBT. A maioria era criança quando a viu em 1994 ou em suas reprises. Não os condeno. Éramos Seis é uma trama de forte apelo humano, sobre uma família desde quando os filhos eram pequenos – logo, também de apelo infantil. Foi o que me cativou quando assisti à novela da Tupi quando tinha oito anos.

Porém, a produção da Globo é uma nova versão, uma outra novela. Como foi a do SBT. E, como a versão de 1994, precisará passar por alguns ajustes. Do pouco que li, um deles diz respeito ao personagem que será vivido por Cássio Gabus Mendes, Afonso. Nas versões anteriores, ele se chamava Alonso, o vendeiro, pai de Carmencita. Este núcleo teve os nomes dos personagens trocados porque não se trata mais de uma família de origem espanhola. Agora é uma família inter-racial e Carmencita passou a chamar-se Inês (vivida por Carol Macedo). Detalhe: Alonso (ou Afonso) e Carmencita (ou Inês) não existem no livro original, foram inventados para a novela de 1977.

Assim, como a versão de 1994 não foi feita para os fãs da versão de 1977, a de 2019 não será para atender o saudosismo dos fãs da novela do SBT. Acho até que o distanciamento será proposital por causa disso, para não aludir à produção da concorrente. Se os puristas esperam com a nova novela terem despertados os mesmos sentimentos de quando eram crianças, nem vejam, porque se decepcionarão. Por melhor que seja a produção da Globo, ela estará sempre em desvantagem por causa da memória afetiva. A emoção não será a mesma e isso não tem nada a ver com a nova novela, mas com quem cresceu e tem hoje um outro olhar, mais apurado, crítico – adulto.

Ivana Bonifácio, Gianfrancesco Guarnieri e Nicette Bruno (foto: divulgação)

Eu acredito que o remake de uma novela deva reverenciar a obra original tanto quanto uma adaptação deve reverenciar o livro que inspirou a novela. No entanto, é preciso estar ciente de que ajustes devem ser feitos, justamente porque um livro nunca rende uma novela e uma novela antiga nunca rende uma nova. Para fazer a nova Mulheres de Areia, Ivani Ribeiro teve de inserir tramas de outra novela, O Espantalho. O mesmo para a nova Ti-ti-ti, recheada com tramas de Plumas e Paetês. A nova Anjo Mau e a nova A Viagem também receberam tramas e personagens inéditos.

Outro fator é que a narrativa televisiva e o público mudam constantemente. A próxima Éramos Seis chega em uma realidade muito diferente da de 1994 ou de 1977. É um mundo completamente novo, conectado pela internet, com forte concorrência com outras mídias (a televisão já não reina mais absoluta), e com um público muito mais consciente e exigente em relação às escolhas narrativas e abordagens atuais (a posição da mulher, do negro, do gay, etc).

Por mais que a história de Éramos Seis seja de época, ela estará inserida em uma realidade muito diferente da de 25 anos atrás – quantos negros havia na novela do SBT? A nova Dona Lola – agora Glória Pires – será tão submissa em relação ao marido quanto foi nas novelas anteriores? Provavelmente trará traços mais condizentes com a narrativa moderna. Alguém poderá contra-argumentar: mas ela é uma mulher da década de 1920! Bem, em Orgulho e Paixão, os perfis das heroínas de Jane Austen foram ajustados à contemporaneidade – critiquei os exageros, mas estava ciente de que o público dos anos 2010 não é o leitor do século 19. É assim também nas adaptações para o cinema.

Lembro que nas versões da novela de 1977 e 1994, o marido de Lola, Júlio, frequentava um cabaré e tinha uma amante prostituta, passagem que não existe no livro. É disso que me refiro: dos ajustes para as exigências do formato telenovela (criação de novas tramas) e da narrativa moderna. O que não esperar de Éramos Seis: que ela seja uma “Éramos Seis 1994 II”, porque tampouco a versão do SBT foi uma “Éramos Seis 1977 II”, e esta, por sua vez, tampouco foi ipsis litteris o livro que a originou.

Veja também

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Éramos Seis (1967)

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Éramos Seis (1977)

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Éramos Seis (1994)