Sinopse

A saga da família Leôncio, desde a década de 1940, quando Joventino chega ao Pantanal do Mato Grosso acompanhado de seu filho de dez anos, José Leôncio. Este se estabelece na região e torna-se um dos principais criadores de gado, iniciando um clã de peões de boiadeiro. Antes, se envolve com Madeleine, uma carioca mimada, que lhe dá o filho Jove.

Na atualidade, Jove se apaixona por Juma Marruá, uma jovem selvagem e sensual, enquanto seu pai, que foi abandonado por Madeleine, encontra carinho ao lado de Filó, uma ex-prostituta que José Leôncio protege ao levá-la para sua casa como empregada.

Manchete – 21h30
de 27 de março a 10 de dezembro de 1990
216 capítulos

novela de Benedito Ruy Barbosa
direção de Carlos Magalhães, Roberto Naar e Marcelo de Barreto
direção geral de Jayme Monjardim

Novela anterior no horário
Kananga do Japão

Novela posterior
A História de Ana Raio e Zé Trovão

CLÁUDIO MARZO – José Leôncio / Velho do Rio (Joventino)
MARCOS WINTER – Jove (Joventino neto)
CRISTIANA OLIVEIRA – Juma Marruá
JUSSARA FREIRE – Filó
MARCOS PALMEIRA – Tadeu
PAULO GORGULHO – Zé Lucas de Nada
ALMIR SATER – Trindade
SÉRGIO REIS – Tibério
ELAINE CRISTINA – Irma
ÍTALA NANDI – Madeleine
NATHÁLIA TIMBERG – Mariana
ANTÔNIO PETRIN – Tenório
ÂNGELA LEAL – Maria Bruaca
LUCIENE ADAMI – Guta
TARCÍSIO FILHO – Marcelo
ROSAMARIA MURTINHO – Zuleica
GIOVANNA GOLD – Zefa
ÂNGELO ANTÔNIO – Alcides
ANDRÉA RICHA – Muda (Maria Ruth)
JOSÉ DE ABREU – Gustavo
FLÁVIA MONTEIRO – Nalvinha
RÔMULO ARANTES – Levi
GISELA REIMAN – Érica
ERNESTO PICCOLO – Renato
EDUARDO CARDOSO – Roberto
JOÃO ALBERTO – Zaqueu
LANA FRANCIS – Teca
GLÁUCIA RODRIGUES – Matilde
1ª fase
PAULO GORGULHO – José Leôncio (jovem)
TÂNIA ALVES – Filó
CÁSSIA KISS – Maria Marruá
JOSÉ DUMONT – Gil
SÉRGIO BRITTO – Antero
INGRA LIBERATO – Madeleine
CAROLINA FERRAZ – Irma
EWERTON DE CASTRO – Quim
MARCOS CARUSO – Tião
LUIZ ARMANDO QUEIROZ – empresário carioca
OSWALDO LOUREIRO – Chico
GEISA GAMA – Rosa (mulher de Chico)
IVAN DE ALMEIDA – Orlando
KITO JUNQUEIRA – pistoleiro
WÁLTER SANTOS – pistoleiro
ENRIQUE DIAZ – Francisco (filho de Gil e Maria)
ALEXANDRE LIPIANI – Raimundo (filho de Gil e Maria)
HAROLDO COSTA – Padre Antônio
ANTÔNIO GONZALEZ – Bruno
FÁTIMA FREIRE – prostituta
KÁTIA D´ANGELO – Generosa (prostituta que inicia José Leôncio)
TOTIA MEIRELES – vedete
JAIRO LOURENÇO – Otávio (amigo de Madeleine)
SILVIO POZATTO – Rúbem (amigo de Madeleine)
ANDRÉA CAVALCANTI – amiga de Madeleine
ALEXANDRE MARQUES – garçom no restaurante onde Zé Leôncio e Madeleine se conhecem
PAULO VINÍCIUS – José Leôncio (jovem)
THIAGO FROTA – Joventino (menino)
RENAN ITABORAHY CABIZUCA – Joventino (criança)
e
ANTÔNIO PITANGA – Túlio
BUZA FERRAZ – Grego
CARLOS GREGÓRIO
CLEMENTE VISCAÍNO
FAUSTO FERRARI – Teodoro
FLORA GENY – Ana
GIUSEPPE ORISTÂNIO – paraquedista
JECE VALADÃO
JITMAN VIBRANOVSKY
JOFRE SOARES – Padre
JÚLIO LEVY
LUIZ HENRIQUE SANT’AGOSTINHO – Ari
MARCUS VINÍCIUS – Expedito
MAURÍCIO DO VALLE
PAULO BARBOSA
ROSE ABDALLA – Myrian
RUBENS CORRÊA – Ibrahim Chaguri
SÉRGIO MAMBERTI – Dr. Arnour
VALÉRIA SEABRA
XANDÓ BATISTA – Padre
ZAIRA ZAMBELLI – prostituta

– núcleo de JOSÉ LEÔNCIO (Paulo Gorgulho / Cláudio Marzo), considerado publicamente “O Rei do Gado”. Mora numa fazenda de criação de gado no Pantanal Mato-Grossense desde moço, quando, junto com o pai, conseguiu a casa e se estabeleceram no Pantanal. Zé Leôncio é um homem muito prático, muito objetivo, mas errou quando casou-se com Madeleine, uma moça da cidade grande, que o fez sofrer muito ao abandonar-lhe, levando o seu primeiro filho homem, Joventino:
o pai JOVENTINO (Cláudio Marzo), homem valente, desaparece misteriosamente no meio do mato, caçando marruás, e foi, enfim, dado como morto. Nunca mais apareceu. Joventino retorna na segunda fase da novela como o VELHO DO RIO, curandeiro, um senhor sábio e místico que conhece todos os mistérios do Pantanal. Dizem as lendas dos pantaneiros da região que o Velho do Rio transforma-se numa sucuri gigante e em tuiuiú (uma ave que habita a região)
a empregada FILÓ (Tânia Alves / Jussara Freire), considerada há muitos anos por Zé Leôncio uma pessoa “muito prestimosa”. Por esse motivo – por sua dedicação ao lar do patrão – Filó tem acesso a todos os acontecimentos do passado da família. Seu maior objetivo é viver como mulher de Zé Leôncio. Apesar de não ser a mulher dele – que nunca se divorciou oficialmente da primeira mulher -, Filó considera que vive muito bem na fazenda
o filho de Filó, TADEU (Marcos Palmeira), o “peão-voador” como é chamado, por dirigir o avião da fazenda. Tadeu é filho de Zé Leôncio com Filó, está sempre próximo do pai, mas o chama de “padrinho”. Motivo: o rapaz nunca foi considerado oficialmente seu filho, ao contrário de Jove, filho de Zé Leôncio com Madeleine. Desde sempre Joventino esteve presente na memória do pai como seu único e verdadeiro filho e Zé Leôncio sempre tratou Tadeu como um afilhado. Zé Leôncio conta que Filó já chegou grávida e viúva na fazenda e ele a acolheu, mas isso não é verdade. Por isso, Tadeu não é herdeiro legítimo de Zé Leôncio, como Jove
o administrador da fazenda TIBÉRIO (Sérgio Reis), contratado por Zé Leôncio para ajudá-lo a controlar os peões em suas comitivas com a boiada da fazenda
o peão LEVI (Rômulo Arantes), mora na fazenda junto com Tibério. Apaixona-se perdidamente pela Muda
o peão TRINDADE (Almir Satter), recém-contratado da fazenda. Tibério e Trindade são músicos violeiros e ilustram muito a cultura sertaneja do Pantanal, tocando violão nas cenas da novela
o outro filho, JOSÉ LUCAS DE NADA (Paulo Gorgulho), chofer de caminhão. É o irmão mais velho de Tadeu e Jove. Ele é filho da prostituta (Kátia D’Ângelo) que iniciou o jovem Leôncio, aos 16 anos, na vida sexual. Leôncio não sabe da existência desse filho. José Lucas foi uma criança criada no meio de prostitutas. Jogador de truco, ele é mulherengo e meio amalucado. Faz um tipo solitário que passa sua vida na estrada. Sua história na novela começa quando o caminhão que dirige é roubado com a ajuda de uma mulher de estrada, servindo de isca. José Lucas vai para o Paraguai atrás do caminhão, mas volta sem sucesso e, para não encarar o dono do rebanho que transportava, sai pelo mundo para ganhar a vida. Vai para o Pantanal e, por coincidência, procura emprego na fazenda do próprio pai.

– núcleo de MARIANA (Nathália Timberg), a matriarca da abastada família Novaes, que vive na Zona Sul do Rio de Janeiro. Detém o poder da família nas mãos, já que o marido é viciado em jogo de pôquer e não esquenta a cabeça com as complicadas questões financeiras da família, que só não está na miséria por esforço de Mariana.:
o marido ANTERO (Sérgio Britto), homem despreocupado e boa-vida. Mariana o considera irresponsável e não confia nele. Morre ainda na primeira fase da novela
a filha mais velha MADELEINE (Ingra Liberato / Ítala Nandi), mulher sofisticada, moderna, sensual. Apaixonou-se na juventude por Zé Leôncio, casou-se com ele e teve um filho. Madeleine foi criada com os pais na capital do Rio de Janeiro e não suportou a vida praticamente selvagem no Pantanal. Abandonou seu marido e a fazenda dele. Estando muito infeliz, escreveu para um amigo da família para buscá-la. Fugiu com este escondida, de volta para o Rio. Em casa ela diz que o ex-marido cheira a “bosta de cavalo” e critica muito a irmã mais nova por esta ser recatada sexualmente. Mesmo depois de mais de vinte anos, Madeleine ainda é apaixonada por Zé Leôncio, mas se recusa a admitir
a filha mais nova IRMA (Carolina Ferraz / Elaine Cristina), uma mulher bonita e inteligente mas que ficou presa a uma paixão platônica pelo marido da irmã, Zé Leôncio. Irma não escondeu o amor do homem que amou e a vontade de viver no Pantanal junto dele, mas passou mais de vinte anos em total silêncio, pois não foi correspondida no afeto. Ainda assim, mantém a esperança viva no seu coração. Já madura, volta ao Pantanal e acaba se envolvendo com o peão Trindade
o neto JOVENTINO, o JOVE (Marcos Winter), filho de Madeleine e Zé Leôncio. Um rapaz jovial, bonito, irresponsável como o avô Antero, a quem era muito apegado. Pratica karatê, surf e asa-delta, mas não é chegado ao trabalho e tem um humor bastante cáustico. Jove tem um hobby ao qual dedica muito do seu tempo: a fotografia. Só conhece o pai depois de adulto, quando, por vontade própria – e para desgosto da mãe – resolve ir atrás do pai no Pantanal
GUSTAVO (José de Abreu), amigo da família de longa data. Psicanalista, é confidente de Mariana e de Irma. Apaixonado por Madeleine, sempre teve esperanças de casar-se com ela. Mas ela preferiu casar-se com Zé Leôncio, quando este foi pela primeira vez ao Rio de Janeiro, jovem mas já com a fama de “O Rei do Gado”. Foi Gustavo quem levou Madeleine do Pantanal de volta ao Rio, quando ela resolveu abandonar Zé Leôncio
o mordomo ZAQUEU (João Alberto), afeminado e patético, tem uma necessidade de se mostrar útil na casa e para isso intromete-se nos assuntos pessoais da família
NALVINHA (Flávia Monteiro), moça da Zona Sul, apaixona-se por Jove e diz para a família dele que está grávida, como tentativa de prender o moço a ela. Tem um relacionamento afetivo com Gustavo, que não vai pra frente por causa de sua imaturidade e fixação em conquistar Jove. Rejeitada por Jove, Nalvinha o acusa de ser gay, gerando mais dúvidas e preocupações na sua família do que a suposta gravidez.

– núcleo de MARIA MARRUÁ (Cássia Kiss), recebeu esse nome dos pantaneiros em referência aos bois bravos e não-domesticados. Maria é uma posseira, chegando e se estabelecendo em Sarandi (interior do Paraná) com o marido GIL (José Dumont), com quem teve um casamento feliz porque se gostavam muito. A casa do casal é ameaçada de incêndio pelo dono das terras de que se apossaram, e Gil, para vingar a morte dos filhos, atira no proprietário de terra à queima-roupa. Depois disso fogem para o Pantanal e se estabelecem numa tapera nas terras de Zé Leôncio, que permite a presença da família no local. Depois de ficar viúva, Maria perdeu o gosto por tudo. Não tirava mais leite das vacas, não fazia mais queijo, não fazia nada. Até que virou a “Marruá”: as lendas dos pantaneiros dizem que Maria, mesmo depois de morta, matou uma sucuri a dentada, matou dois sujeitos que estiveram no Pantanal atrás do marido dela, e transforma-se numa onça-pintada de mais de dois metros em noite de lua cheia:
o filho CHICO (Henrique Diaz), rapaz corajoso que perde a vida tentando salvar a família dos incêndios provocados pelo latifundiário, dono das terras que a família ocupou
a filha JUMA (Cristiana Oliveira), também chamada JUMA MARRUÁ, nascida ali, nas águas do Pantanal, onde Maria fez o parto, sozinha. Sua mãe cortou o cordão umbilical com os dentes. Maria estava tão amargurada com a vida que não quis a filha, ainda mais quando soube que era mulher. Colocou-a no rio e foi embora. Depois, arrependida, correu atrás da filha feito louca e a criou sozinha, sem a ajuda de ninguém. Juma não sabe ler nem escrever, nunca saiu da terra onde nasceu. Mora sozinha na tapera, herdou o temperamento indócil da mãe e por isso também é chamada “Marruá” pelos pantaneiros da região, que dizem que ela se transforma em onça-pintada, como a mãe
a falsa “MUDA” (Andréa Richa), filha do latifundiário que matou os filhos de Gil e Maria no Paraná. Aparece na tapera de Juma pedindo acolhida e vai conquistando a amizade da moça, que precisa de sua companhia por um instinto de ter um “bicho” parecido consigo ao seu lado. Pelo fato de ela não falar, Juma não consegue entender como a Muda apareceu e de onde veio. O pai da Muda morreu nos braços da mãe, com um tiro dado por Gil, que quis vingar a morte dos três filhos homens. Mais tarde, sua mãe morreu em seus braços e lhe fez o pedido de que vingasse a morte do marido. Muda cumpre o que prometeu à mãe e arma uma cilada, onde Maria Marruá é morta com um tiro à queima-roupa, da mesma forma que Gil matou o pai da moça vingadora. É objeto de desejo do administrador-peão Tibério e com o tempo vem a relacionar-se com ele.

– núcleo de TENÓRIO (Antônio Petrin), fazendeiro que chegou recentemente na região onde mora Zé Leôncio, no Pantanal:
a esposa MARIA BRUACA (Ângela Leal), como ele a chama, pejorativamente. Tenório não mantém relações sexuais com a mulher, a quem trata com desprezo na frente de todos. Bruaca é totalmente inofensiva e submissa, muito dedicada ao lar
a filha MARIA AUGUSTA, ou apenas GUTA (Luciene Adami), que acabou de se formar na faculdade na capital de São Paulo e, segundo ela, voltou ao Pantanal para “arejar a cabeça”. Guta voltou da cidade grande cheia de idéias libertárias, afrontando o pai nas maldades que ele faz. Guta declara abertamente que é dona de sua vida e que não tem nada que a prenda no Pantanal. Depois de um tórrido caso de amor fica apaixonada por Jove, sem saber que ele já está apaixonado por outra mulher, a pantaneira Juma
o peão ALCIDES (Ângelo Antônio), rapaz trabalhador, peão manso, mas que fica obcecado por Guta, quando esta chega ao Pantanal. Envolve-se com a filha do patrão num jogo de sedução muito perigoso. Após dar corda e alimentar seus desejos, Guta passa a desprezá-lo, pois já está envolvida com Jove. Mais tarde, Alcides se envolve com a mulher de Tenório, Maria Bruaca. Os dois mantém um tórrido caso de amor e a paixão é recíproca entre eles. Bruaca passa a se tornar rebelde e diferente dentro de casa, causando desconfianças no perverso Tenório, que descobre o romance e executa com suas próprias mãos a castração do empregado. Alcides não é nativo do Pantanal. Ele esconde sua origem, que está relacionada aos assassinatos ocorridos em Sarandi com a família dos posseiros Gil e Maria. Alcides sabe que Tenório foi o verdadeiro culpado por tudo o que aconteceu com a família de Juma e sabe que ele fugiu de lá para não ter revelada a sua culpa nos assassinatos
Tenório tem uma outra família, em São Paulo: a outra mulher, ZULEICA (Rosamaria Murtinho) e os filhos. Esse segredo acaba descoberto por Guta, que não diz nada à mãe, para não magoá-la. Depois que Bruaca descobre a outra família do marido, passa a ser rebelde e provocadora com ele, por isso se nega a fazer os serviços domésticos e contrata uma empregada, ZEFA (Giovanna Gold).

Uma grata surpresa no universo da telenovela brasileira. Um sucesso arrebatador e munido de tantas novidades que chegou a abalar o tão alicerçado departamento de dramaturgia da TV Globo. Pela primeira vez, desde que se impôs na produção de novelas nos anos 1970, a Globo viu seu posto de líder de audiência suplantado.

A Globo exibia em seu horário das oito da noite a novela Rainha da Sucata e Pantanal entrava no ar, na TV Manchete, imediatamente depois, às 21h30. Durante os vinte primeiros capítulos, ao competir diretamente com a linha de shows da Globo, Pantanal rapidamente atingia picos de 30 pontos, fechando sempre com média superior aos 20 pontos (Ibope da Grande São Paulo).
“A partir da quarta semana, ultrapassamos a Globo e ganhamos uma visibilidade jamais vista na Manchete”, afirmou o diretor Jayme Monjardim a Flávio Ricco e José Armando Vannucci, para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”.
A novela fechou com 34 pontos de média final, o maior índice da história da teledramaturgias da Manchete. O último capítulo (exibido em 10/12/1990) conseguiu a proeza de registrar praticamente o dobro do ibope da Globo: 41 pontos.

Parte da estratégia da Globo para diminuir a audiência de Pantanal foi desenvolvida com o aumento gradual da duração dos capítulos de Rainha da Sucata.
Silvio de Abreu, o autor da novela da Globo, desabafou para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”: “As duas nunca concorreram, mas a imprensa só publicava comparações. Tinha noites que eu chegava aos 70 pontos de pico e mais tarde o Benedito atingia 40. Aí só falavam dele!”

Para tentar conter a fuga de telespectadores para a Manchete, a Globo sacrificou a ordem dos autores de suas novelas. Dias Gomes entraria após Silvio de Abreu às oito da noite, mas a emissora, numa decisão inédita, criou um novo horário de novelas – 21h30 – para bater de frente com Pantanal. Desta forma, em outubro de 1990, estreou Araponga (uma sinopse de Dias Gomes), concorrendo diretamente com a novela da Manchete. Mas de nada adiantou: Pantanal seguiu imbatível até o seu término.
Com a ida de Dias para outro horário, Cassiano Gabus Mendes, tradicional autor das sete da noite, foi acionado. Assim, no final de outubro, Rainha da Sucata foi substituída pela novela Meu Bem Meu Mal, de Cassiano. Neste momento, a Manchete já havia alterado sua forma de agir e não esperava mais terminar a principal atração da Globo para iniciar sua novela. O capítulo começava antes justamente para prejudicar a audiência da adversária.

Curiosamente, Pantanal havia sido negada pela Globo. Benedito Ruy Barbosa escrevia apenas para o horário das seis da emissora e queria que a nova novela fosse a sua estreia no horário nobre. Após muita insistência, o autor recebeu o aval para ir até o Pantanal para avaliar as reais condições de produzi-la. Mas a época era de chuva e ele e os diretores Herval Rossano e Atílio Riccó voltaram com quase mil fotos em que aparecia apenas água e mato. Sem o registro da deslumbrante flora e fauna tão propagada pelo autor, o projeto foi engavetado. Benedito ainda ouviu da Globo a proposta para transformar o projeto em minissérie ou ambientar a novela em uma fazenda carioca ou paulista para facilitar a produção.
“Mas bati o pé porque queria o Pantanal”, afirmou Benedito. O fato é que, diante das dificuldades e da estimativa de custos muito alta, a Globo preferiu desistir do projeto.

O jatinho fretado para levar o autor e diretores da Globo para conhecer as locações perdeu a estabilidade durante uma briga entre Benedito e Herval Rossano.
“Eu queria encher ele de porrada!”, declarou o autor para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”. Por pouco, o resultado desse desentendimento não foi a morte de todos que estavam na aeronave.

Benedito Ruy Barbosa ficou aberto a conversas com os concorrentes. O primeiro a se aproximar foi Carlos Alberto de Nóbrega, em nome do SBT. Foi agendada uma reunião na qual Silvio Santos deveria comparecer, mas, no dia, ele alegou problemas na emissora.
“Mentira!”, disse Benedito para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”. “Ele estava assinando com o Guga de Oliveira para fazer Cortina de Vidro.”
Ou seja, Silvio Santos preferiu a novela pronta da produtora de Guga de Oliveira a se lançar em uma nova produção.

Benedito, no entanto, não resistiu ao chamado de Jayme Monjardim, na época diretor artístico da TV Manchete.
“Para convencer o Benedito, eu disse: ‘produzo a sua novela no Pantanal, exibo no horário nobre e você vem para a Manchete'”, recordou o diretor.
Jayme e Benedito mudaram o nome da novela, que tinha o título provisório de Amor Pantaneiro, para Pantanal. Decidiram que a fazenda do cantor Sérgio Reis (amigo pessoal de Benedito) seria a base de todos os trabalhos, e uma casa construída pelo General Rondon, a locação principal.
“Eram dez atores dormindo num mesmo quarto, porque não havia estrutura para dar conforto a uma imensa equipe”, lembrou Monjardim ao livro “Biografia da Televisão Brasileira”.

Para o elenco chegar no local da gravação da novela, era preciso uma pequena via-crucis. Os atores iam de avião de carreira até Campo Grande e de lá pegavam um avião bimotor para chegar até a fazenda. Gravavam em local isolado da “civilização”. Não havia televisor ou telefone. A comunicação com o Rio de Janeiro e São Paulo era feita pelos barulhentos rádios amadores das fazendas.

Pantanal teve 90% de suas cenas em rio gravadas no Rio Negro, em Campo Grande. Na fazenda de Sérgio Reis, havia a Lagoa das Garças e o outro afluente, onde a maioria tinha o costume de nadar pelada, inclusive o próprio Benedito. A equipe de produção concentrou todo o trabalho no local, montando uma estrutura para fazer cópias dos roteiros que chegavam nos voos diários e uma central de edição de imagens e manutenção dos equipamentos. De tempo em tempo, alguns artistas passavam uns dias no Rio de Janeiro para registrar cenas que, obrigatoriamente, necessitavam de estúdio. Flávio Ricco e José Armando Vannucci no livro “Biografia da Televisão Brasileira”.

Os destaques de Pantanal foram muitos. O principal deles foi a utilização da natureza transformando-a em um elemento importante na trama. O manifesto ecológico surgia através da tomada de consciência a respeito dos fatos da região. Como uma espécie de elogio à natureza, com cenas contemplativas e personagens fortes, Benedito Ruy Barbosa criou uma trama rural da melhor qualidade, enriquecida com o folclore da região pantaneira onde se passava a história. Entraram para o imaginário nacional figuras como o Velho do Rio e Juma Marruá, a mulher selvagem que se transformava em onça.

Claro que tal repercussão não saiu unicamente da boa história de Benedito. Toda a magia das imagens belíssimas do Pantanal, captada com requinte cinematográfico pelo diretor Jayme Monjardim e sua equipe, contribuiu para o excelente resultado final. Registre-se também a competente trilha sonora, composta especialmente por Marcus Viana, e o elenco bem escolhido.

A novela era recheada de cenas em que apareciam demorados vôos de tuiuiús, jacarés e capivaras em vazantes, pores-do-sol e chalanas descendo os rios do Pantanal. Para o diretor, o cenário da novela foi uma das principais chaves para o sucesso da produção.
“Temos o mérito de ter saído do estúdio, mas não houve uma nova linguagem. Houve sim um espaço dentro do Brasil que é mágico e que ninguém conhecia. Qualquer um que botasse a câmara lá iria fazer um belo trabalho”, afirmou Jayme Monjardim.

Claro que os inúmeros banhos de rios dos jovens atores nus ajudaram a atiçar a audiência. Os peladões da novela repercutiram nas conversas do dia a dia.
Cristiana de Oliveira conheceu o sucesso como a protagonista da trama (Juma Marruá) e garantiu que na época não se importou em aparecer inclusive em nu frontal na novela.
“A Juma tinha uma sensualidade de bicho, sem maldade. Por isso, a nudez estava inserida na trama.”

A novela fez brilhar Jussara Freire, perfeita como a criada Filó. Transformou Paulo Gorgulho e Cristiana Oliveira em astros de maneira repentina, e deu novo impulso às carreiras de Marcos Palmeira e Marcos Winter.

Mas o mérito maior é mesmo de Benedito Ruy Barbosa apresentando uma das melhores novelas de todos os tempos, escrita com inspiração.
O autor declarou: “O público adorou conhecer a paisagem de um lugar pouco conhecido do Brasil. O espectador relaxou na frente da tevê com paisagens deslumbrantes e uma história simples.”

Depois deste grande sucesso, a Globo tratou de resgatar Benedito promovendo-o ao primeiro escalão dos autores da emissora. De volta à Globo, e no horário que tanto desejava, ele escreveu algumas das novelas de maior êxito da década de 1990: Renascer (1993), O Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999-2000).

Cristiana Oliveira, Marcos Winter, Marcos Palmeira, Carolina Ferraz, Paulo Gorgulho e Ângelo Antônio, pouco conhecidos do grande público antes de Pantanal, se tornaram os mais novos astros da televisão. Foram contratados pela Globo imediatamente após Pantanal, ou poucos anos depois, e ganharam papeis de destaque em novelas.

Pantanal recebeu a maioria dos prêmios de televisão em 1990. Pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) foi eleita a melhor novela, diretor (Jayme Monjardim), ator (Cláudio Marzo), atriz (Jussara Freire) e revelação masculina (Ângelo Antônio). Também foi premiada com o Troféu Imprensa de melhor novela, ator (Cláudio Marzo), atriz (Jussara Freire) e “pessoa do ano” (Cristiana Oliveira).

A novela acabou influenciando no próprio mercado de terras da região pantaneira. Os fazendeiros do Pantanal começaram a abrir pousadas ecológicas e abandonar aos poucos o mercado de pecuária extensiva que sempre dominou a região. A novela difundiu a beleza do Pantanal para o mundo e abriu um grande campo para o turismo no estado.

Em abril de 1990, durante uma cena à beira do Rio Negro, o cantor Sérgio Reis ajudou Cristiana Oliveira a escapulir do cerco de seis jacarés-do-papo-amarelo, que invadiram a gravação da novela.

Foi Sérgio Reis que sugeriu a entrada de Almir Sater para o elenco fixo de Pantanal. O músico, amigo de Benedito com quem já havia trabalhado em Paraíso (1982-1983), achou que seria oportuno ter outro cantor na trama.

Jayme Monjardim praticamente obrigou Carolina Ferraz a estrear como atriz em Pantanal. Na época, ela era apresentadora do Programa de Domingo, da Manchete.
“Se eu dissesse não, ele me mandava embora. Não tive alternativa”, lembrou a atriz.
“Era a mais resistente a tirar a roupa. Foi duro de convencer, mas aconteceu”, disse Monjardim ao livro “Biografia da Televisão Brasileira”.

Ítala Nandi, que interpretava a personagem Madeleine, pediu para deixar a novela a fim de se dedicar a um filme. Benedito Ruy Barbosa pretendia fazer Madeleine, uma dondoca que sempre teve tudo o que quis na vida, se transformar após sobreviver à queda de um avião no Pantanal e viver durante algum tempo no meio do mato após ser salva pelo Velho do Rio (Cláudio Marzo). Com o pedido da atriz, a personagem acabou morrendo no acidente, deixando Gustavo (José de Abreu), apaixonado por ela, sem função na história. Fábio Costa em “Novela, a Obra Aberta e Seus Problemas”.

O ator João Alberto Pinheiro, que vivia o divertido mordomo Zaqueu, faleceu em janeiro de 1991, um mês após o término da novela, vítima de uma pneumonia decorrente do vírus da Aids.

A novela vendeu de vacina para febre aftosa até tratores e agrotóxicos.
“Aquilo causou um frisson danado”, lembrou Benedito Ruy Barbosa. “Na novela, o personagem comprava um aparelho de TV e precisava de uma parabólica. Foi um caso fantástico, porque mostramos a instalação da antena.”
Tinha jabá até no barco que subia e descia o rio em que Juma e Joventino tomavam banho nus.
“Teve muita propaganda naquela chalana, que trazia mercadorias para o povo ribeirinho”, contou Barbosa. “Isso não agride, não acho bom quando o merchandising entra muito forte, violentando toda a história, o autor, o elenco.”

A então modelo Nani Venâncio aparecia na abertura, nadando nua no rio e se transformando em onça. Já havia figurado a abertura da novela O Sexo dos Anjos, da Globo, no ano anterior. Chegou a fazer alguns trabalhos como atriz e firmou-se como apresentadora de TV.

Pantanal foi exibida em vários países, como Grécia, Itália, Bulgária, Estados Unidos e toda a América Latina.

A novela foi reprisada na Manchete em duas ocasiões: de 17/06/1991 a 18/01/1992, de segunda a sábado às 19h30 (e mais tarde às 19h);
e de 26/10/1998 a 14/07/1999, em 217 capítulos, de segunda a sábado às 21h (e mais tarde às 21h30).
Por causa de suas reprises, as trilhas sonoras voltaram às lojas.

Nove anos após o fim da TV Manchete, o SBT reapresentou Pantanal, de 09/06/2008 a 13/01/2009. Dessa forma, assumiu uma batalha judicial com a Rede Globo, que afirmava ser detentora dos direitos de transmissão, adquiridos diretamente de Benedito Ruy Barbosa. Já o canal de Silvio Santos possuía a obra integral (fitas Beta), comprada em leilão judicial da TV Manchete cerca de cinco anos antes. Os direitos cedidos foram obtidos pela JPO Produções Ltda., por contrato havido com a Massa Falida da TV Manchete Ltda., celebrado em decorrência de decisão judicial autorizatória do juiz da 28ª Vara Cível de São Paulo, proferida nos autos da Falência da TV Manchete Ltda. (Proc. 583.00.2000.539652-1).O horário de início da reapresentação da novela foi às 22 horas, mas variou muito devido às programações das concorrentes.

Trilha Sonora 1

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01. NO MUNDO DOS SONHOS (PEPPERLAND) – Robertinho do Recife (tema de Jove)
02. QUEM SABERIA PERDER – Ivan Lins (tema de José Leôncio)
03. APAIXONADA – Simone (tema de Irma)
04. DIVINAMENTE NUA A LUA – Orlando Moraes (tema de Guta)
05. AMOR SELVAGEM – Marcus Viana (tema de Juma e Jove)
06. ESTRELA NATUREZA – Sá & Guarabira (tema de Maria Marruá, depois tema de Juma)
07. PANTANAL – Sagrado Coração da Terra (tema de abertura e tema geral)
08. MEMÓRIA DA PELE – João Bosco (tema de Madeleine)
09. CASTIGO – Léo Gandelman (tema de Gustavo)
10. UM VIOLEIRO TOCA – Almir Sater (tema de Tibério)
11. TRISTE BERRANTE – Solange Maria e Adauto Santos (tema de Filó)
12. COMITIVA ESPERANÇA – Sérgio Reis (tema de locação: comitiva dos peões de José Leôncio)

Trilha Sonora 2

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01. TOCANDO EM FRENTE – Maria Bethânia
02. MEU CORAÇÃO – João Caetano (tema de José Lucas de Nada)
03. CANTAR – Sílvia Patrícia e Caetano Veloso
04. REINO DAS ÁGUAS – Marcus Viana
05. CHALANA – Almir Sater (tema de locação: Pantanal)
06. PANTANAL – Sagrado Coração da Terra (tema de abertura e tema geral)
07. SAUDADE – Renato Teixeira
08. A GLÓRIA DAS MANHÃS – Sagrado Coração da Terra (tema de locação: Ninhal)
09. GARÇA BRANCA – Cláudio Nucci (tema de Maria Bruaca)
10. PAZ – Sagrado Coração da Terra (tema de Irma)
11. PEÃO BOIADEIRO – Sérgio Reis
12. ESPÍRITO DA TERRA – Marcus Viana
13. NOITE – Marcus Viana

Trilha Sonora Complementar: Suíte Sinfônica

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Músicas compostas e regidas por Marcus Viana
01. PANTANAL
02. PULSAÇÕES DA VIDA
03. ESPÍRITO DA TERRA
04. ONÇA PINTADA
05. NOITE
06. REINO DAS ÁGUAS
07. PAZ
08. A GLÓRIA DAS MANHÃS
09. SINFONIA

Trilha Sonora Complementar: Pantaneiro – Sérgio Reis

pantanalt4
01. PEÃO DE BOIADEIRO (tema de Tibério)
02. PANTANAL EM SILÊNCIO
03. COMITIVA ESPERANÇA
04. PRA QUANDO ELA VOLTAR
05. GURI
06. SINFONIA PANTANEIRA
07. CAVALO PRETO (tema de José Leôncio)
08. CORAÇÃO PANTANEIRO
09. RABO DE SAIA
10. RITA DONZALEA
11. PORTA DO MUNDO
12. LÁ NO PÉ DA SERRA / TREM DO PANTANAL / CHALANA / LEMBRANÇA
13. PANTANAL

Pesquisa de Repertório: José Milton
Produção Musical: Guti Carvalho

Tema de Abertura: PANTANAL – Sagrado Coração da Terra

São como veias, serpentes
Os rios que trançam o coração do Brasil
Levando a água da vida do fundo da terra
Ao coração do Brasil
Gente que entende
Que fala a língua das plantas, dos bichos
Gente que sabe o caminho das águas
Das terras, do céu
Velho mistério guardado
No seio das matas sem fim
Tesouro perdido de nós
Distante do bem e do mal
Vindo do Pantanal
Lendas de raças
Cidades perdidas nas selvas do coração do Brasil
Contam os índios de deuses que descem do espaço
No coração do Brasil
Redescobrindo as Américas quinhentos anos depois
Lutar com unhas e dentes pra termos direito a um depois
Fim do milênio
Resgate da vida, do sonho, do bem
A Terra é tão verde e azul
Os filhos dos filhos dos filhos dos nossos filhos verão…
O futuro é tão verde e azul
Os filhos dos filhos dos filhos dos nossos filhos verão!

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