Sinopse

José Carlos Moreno, o Carlão, é um motorista de táxi, noivo da operária Lucinha, que se vê diante de um dilema ético ao deparar com o dinheiro de um assalto, que fora esquecido em seu carro. A princípio, guarda a mala de dinheiro, mas não resiste em usá-lo quando o pai, Raimundo, tem seus problemas de saúde agravados. Movido pela ambição, Carlão acaba se apossando do dinheiro e ascende socialmente, abrindo sua própria frota de táxi.

Carlão é influenciado por Eunice, uma mulher infeliz no casamento que foi envolvida involuntariamente no assalto e acabou se apaixonando por ele. A ascensão social de Carlão acompanha o fim de sua relação com Lucinha, que, contra a vontade dele, se tornou uma modelo renomada. Enquanto isso, Eunice é processada como cúmplice do assalto. O sentimento de culpa de Carlão por ter ficado com o dinheiro que não lhe pertencia e por não ter inocentado Eunice o levam a se casar com ela, mesmo ainda amando Lucinha.

No outro lado da história ganha força o drama de Salviano Lisboa, um milionário viúvo que, apesar de ser pai de seis filhos (Vitória, Vicente, Vinícius, Vilma, Virgílio e Válter), vive em completa solidão. Até conhecer Lucinha, então operária de sua fábrica, e lançá-la como modelo exclusiva das confecções de sua indústria têxtil. Longe de Carlão, Lucinha se envolve cada vez mais com Salviano, completamente apaixonado por ela.

A entrada de Lucinha na vida de Salviano aciona uma série de conflitos com os filhos dele, resistentes à união, por não concordarem com a diferença de idade do casal e por acharem que Lucinha só está interessada no dinheiro do velho. É quando Vilma tem acelerado seus problemas psicológicos, vítima de um trauma na infância, por nunca ter aceitado bem a morte prematura de sua mãe. Vilma acaba se casando com Nélio Porto Rico, dono da agência que faz a publicidade das indústrias de seu pai.

Globo – 20h
de 24 de novembro de 1975
a 5 de junho de 1976
167 capítulos

novela de Janete Clair
direção de Daniel Filho e Jardel Mello

Novela anterior no horário
reprise de Selva de Pedra

Novela inédita anterior no horário
Escalada

Novela posterior
O Casarão

FRANCISCO CUOCO – Carlão (José Carlos Moreno)
BETTY FARIA – Lucinha (Maria Lúcia Batista / Lucy Jordan)
LIMA DUARTE – Salviano Lisboa
ROSAMARIA MURTINHO – Eunice
DENIS CARVALHO – Nélio Porto Rico
DÉBORA DUARTE – Vilma (Telma)
THERESA AMAYO – Vitória
LUIZ ARMANDO QUEIROZ – Vicente
LAURO GÓES – Virgílio
JOÃO CARLOS BARROSO – Válter
MARCO NANINI – Vinícius
EMILIANO QUEIROZ – Valdir
GILBERTO MARTINHO – Raimundo
LUTERO LUIZ – Marciano
LEINA KRESPI – Elizeth
ELIZÂNGELA – Emilene
ELZA GOMES – Bá
DARY REIS – Ernani
MILTON GONÇALVES – Dr. Percival Garcia
SANDRA BARSOTTI – Gigi
GERMANO FILHO – Orestes
ILVA NIÑO – Alzira
MALU ROCHA – Cibele
MARIA POMPEU – Djanira
NESTOR DE MONTEMAR – Rogê
IVAN CÂNDIDO – Orlando Coutinho
ALFREDO MURPHY – Sandoval
WALDIR MAIA – Zoca
LADY FRANCISCO – Rose
MOACYR DERIQUÉM – Ricardo
FÁBIO MÁSSIMO – Paulo Roberto
ANDRÉ VALLI – Claudius Lobato
HORTÊNCIA TAYER – Verinha
GLÓRIA LADANY – Aurora
e
ÁTILA VENTURA – Jaime
CARLOS DUVAL – Aguiar (ex-sócio de Salviano que lhe aplicou um golpe no passado)
CIDINHA MILAN – Maria de Lurdes (mulher de Jurandir que presta um depoimento)
DAISY MACHADO – Zilda (chefe na fábrica da Centauro)
DARCY DE SOUZA – empregada de Eunice
ELIAS SOARES – Dr. Machado
ÊNIO SANTOS – delegado
FERNANDO EIRAS – convidado em uma festa de Vicente que dá em cima de Lucinha
FERNANDO JOSÉ – Altino (homem com quem Salviano faz negócios)
GEORGIANA DE MORAES – Claudinha (amiga de Vilma)
GEYR MACEDO SOARES – Mr. Lindner (empresário que quer levar Lucinha para o exterior)
GILSON MOURA – Jurandir (comparsa de Miguel que vai cobrar de Eunice o dinheiro do assalto)
HAYDÉE FERNANDES – Haydée
HÉLIO FERNANDO – Cesinha (amigo de Vilma)
HELOÍSA HELENA – Hortência (tia de Eunice)
HEMÍLCIO FRÓES – Dr. Noronha
ISOLDA CRESTA – Mafalda (falecida mulher de Salviano)
JOSÉ MARIA MONTEIRO – juíz no julgamento de Eunice
JOSÉ MARINHO – Noel
JUAN DANIEL – cantor de tango numa boate que canta uma música a pedido de Salviano
LEDA BORBA – Judite
LUIZ FELIPE VASCONCELLOS – Lucas
MARIA HELENA PADER – enfermeira quando Raimundo é internado, no início
MÁRIO LAGO – Dr. Peres (advogado de Eunice)
MARY DANIEL – mulher do cantor de tango
MIRIAN PIRES – Nora (prima de Bá que a substitui na mansão dos Lisboa quando ela se afasta para fazer uma viagem)
NADIR FERNANDES – Dona Nadir (secretária de Salviano em seu escritório)
RUTH MARQUES – Júlia (empregada de Lucinha)
ZANONI FERRITE – Miguel (amante de Eunice que a envolve no assalto do primeiro capítulo)
Boca de Alpercata (Anacleto Jorgelino Gentil, bicheiro que tem negócios com Carlão)

– núcleo de JOSÉ CARLOS MORENO, o CARLÃO (Francisco Cuoco), suburbano, é o protótipo do machão de bom coração, um pouco rude, mas boa-praça e amado pelos vizinhos do Méier, bairro onde mora, no Rio de Janeiro. Chofer de táxi, é o responsável pelo sustento do pai, doente e impedido de trabalhar. Tem um relacionamento tumultuado com a noiva, por sucessivas crises de ciúmes, embora os dois se amem. Basicamente honesto, a luta pela sobrevivência, entretanto, leva-o a se apossar de uma mala de dinheiro, fruto de um assalto, esquecido no banco de seu táxi. Mesmo vivendo um conflito ético, começa a usar o dinheiro, primeiro para custear o tratamento do pai doente. Mas a ambição o leva a abrir a sua própria frota de táxis. Sua ascensão social acompanha o fim de seu namoro:
o pai doente RAIMUNDO (Gilberto Martinho), viúvo, ex-estivador, com problemas cardíacos que o impossibilitam de voltar ao trabalho. Inconformado com a inatividade e absorvido pelos problemas familiares, procura burlar a vigilância do filho, acreditando que atrapalha a sua vida
a irmã ELIZETH (Leina Krespi), metida com homens errados e bandidos, acabou “perdida na vida”, como falam o pai e o irmão. Motivo de desgosto para o pai, ela é proibida pelo irmão de procurá-los. Porém, apesar dos conflitos com o irmão, nutre um grande amor por sua família
o amigo MARCIANO (Lutero Luiz), trabalha em seu táxi durante a noite. Tem obsessão por extraterrestres e afirma já ter feito uma viagem a Marte em um disco voador
a mulher de Marciano, AURORA (Glória Ladany), tem uma atitude passiva diante do marido, concordando em ouvir e confirmar suas histórias, embora não acredite nelas
a secretária ROSE (Lady Francisco), que ele contrata quando monta sua frota de táxi. Sensual e insinuante, é perdidamente apaixonada pelo patrão
o advogado ZOCA (Waldir Maia), tenta resolver os problemas do escritório e de sua vida particular
o bandido SANDOVAL (Alfredo Murphy), homem perigoso que se envolve com Eliseth e com quem Carlão faz transações para cobrir suas dívidas. Usa Eliseth para pressionar Carlão.

– núcleo de LUCINHA (Betty Faria), noiva de Carlão no início. Operária, trabalha como tecelã e ambiciona uma vida melhor, o que a coloca em conflito com Carlão, que não compreende suas pretensões. Com um forte sentido de independência, aliado a um gênio intempestivo, várias vezes se rebela contra a vontade do noivo, embora tema perdê-lo. Mesmo assim, é bem-humorada e disposta a obter da vida o que há de melhor. Bela e charmosa, é “descoberta” na fábrica e, lançada como a modelo LUCY JORDAN, passa a desfilar as confecções da tecelagem. Sua ascensão profissional acompanha o fim de seu namoro e a descoberta de um novo amor:
os pais ORESTES (Germano Filho), carpinteiro simplório, criou as filhas dentro de normas rígidas de comportamento e não admite qualquer deslize. Sonha em ver as filhas bem casadas. A princípio, resiste fortemente a aceitar a profissão de modelo da filha
e ALZIRA (Ilva Niño), doceira, defende o marido e não compreende a rebeldia das filhas, procurando orientá-las dentro dos princípios morais a que está habituada
a irmã mais nova EMILENE (Elizângela), trabalha na mesma fábrica de tecidos que ela. Faceira e rebelde, meio irresponsável, sente uma paixão secreta por Carlão e se revolta porque ele a trata como uma criança. Os pais queriam batizá-la com o nome de suas respectivas cantoras preferidas, Emilinha Borba e Marlene – daí Emilene.

– núcleo de SALVIANO LISBOA (Lima Duarte), viúvo rico, começou a vida como caixeiro e virou proprietário de uma grande tecelagem, a Centauro. No trabalho, é dinâmico, exigindo o máximo dos empregados, e inflexível nas punições, quase um ditador. Vitorioso na empresa, é um fracassado na tentativa de conseguir a afeição dos seis filhos, que vão aos poucos se afastando de casa. Transforma-se em um homem sozinho, carente de comunicação e amor. Apaixona-se por Lucinha, operária de sua fábrica, e a ajuda a transformar-se em uma modelo famosa. Lucinha, a princípio, resiste aos seus encantos, mas acaba sucumbindo a esse novo amor, o que põe um fim em sua relação com Carlão. O envolvimento encontra forte resistência nos filhos de Salviano, que enxergam a moça como uma oportunista e fazem tudo para afastá-la do pai:
os filhos: VITÓRIA (Theresa Amayo), a mais velha, casada com três filhos pequenos. Dominada pelo marido, que não suporta o sogro, não pensa em contrariar suas ordens. O casamento a transformou em uma mulher frustrada, mais por causa dos ciúmes e do autoritarismo do marido,
VICENTE (Luiz Armando Queiroz), playboy irresponsável e mulherengo, seduziu Emilene. É o vice-presidente da Centauro, porém, indolente e preguiçoso, trabalha a contragosto, por imposição do pai. É quem primeiro instiga os irmãos contra Lucinha, quando ela começa a se envolver com Salviano. Na verdade, sente uma forte atração pela moça. No decorrer da trama, consegue afastar o pai da presidência da empresa, assumindo o seu cargo,
VINÍCIUS (Marco Nanini), mora nos Estado Unidos e raramente dá notícias, para o desgosto do pai. Vem ao Brasil para tentar impedir o casamento dele com Lucinha, pois não quer dividir a herança do velho com nenhuma mulher com quem ele possa se casar,
VILMA (Débora Duarte), tem sintomas de esquizofrenia e crises de agressividade abruptas, por causa de um trauma na infância, por nunca ter aceitado bem a morte prematura de sua mãe. Instável e caprichosa, tem crises de depressão. Trata-se com um psiquiatra,
VIRGÍLIO (Lauro Góes), noviço, volta ao Brasil após uma temporada no exterior. Seguidor de São Francisco de Assis, fez voto de pobreza e castidade e pratica trabalho voluntário. É o único dos filhos que aprova o relacionamento do pai com Lucinha. Desperta a paixão em Emilene e tenta resistir ao assédio da jovem,
e VÁLTER (João Carlos Barroso), o caçula, casou-se prematuramente. A imaturidade do casal se reflete no casamento. Ainda estudante, vive às custas do pai, embora não suporte essa dependência
a nora CIBELE (Malu Rocha), mulher de Válter, o casal tem um filho pequeno, FRANCISQUINHO. Garota meio riponga, repele as hipocrisias da família Lisboa, dizendo tudo o que pensa. Muito jovem, não tem consciência da seriedade do compromisso que assumiu
o genro ERNANI (Dary Reis), marido de Vitória, com quem vive se desentendendo. Quando conheceu a mulher, era pobre e foi rejeitado por Salviano, que se opôs ao casamento. Rancoroso, guarda uma mágoa do sogro e tenta impedir que a mulher visite a família com frequência. Ciumento, seu temperamento é o principal responsável pelo desajuste do casal
o psiquiatra de Vilma, PERCIVAL GARCIA (Milton Gonçalves), médico renomado. Consegue, a muito custo e insistência, desenvolver uma boa relação com sua paciente. Desperta o interesse de Vitória, quando o casamento dela vai mal. Encontra preconceito por ser negro
a governanta (Elza Gomes), que ajudou a criar todos os seus filhos. Dedicada à família, procura suavizar a solidão do patrão, ouvindo seus desabafos e sempre encontrando desculpas para o afastamento dos filhos, a quem procura proteger, um a um
a falecida mulher, MAFALDA (Isolda Cresta), aparece em flashbacks, em suas lembranças e nas recordações de Vilminha.

– núcleo de EUNICE (Rosamaria Murtinho), mulher de classe média, elegante, de finos modos, entediada com o casamento e a ausência do marido, que vive viajando a trabalho. Acaba se relacionando com um homem que a envolve em um assalto a um banco. A mala com o dinheiro é esquecida no táxi de Carlão, quando o casal fugia do assalto. O amante acaba morto pela polícia e o comparsa dele acredita que ela ficou com a mala de dinheiro. Ao procurar Carlão, na tentativa de reaver a mala, acaba apaixonada por esse homem rude, tão diferente de seu mundo. É processada como cúmplice do assalto. O sentimento de culpa de Carlão por ter ficado com o dinheiro que não lhe pertencia e por não ter inocentado Eunice o levam a se casar com ela, mesmo ainda amando Lucinha. Mas os dois são infelizes nessa união:
o marido RICARDO (Moacyr Deriquém), piloto de vôos internacionais, passa vários dias fora de casa. Desconfia que isso seja a causa do nervosismo crescente da mulher. Ao descobrir o envolvimento dela no assalto, pede divórcio. Acaba morrendo em um desastre aéreo
o filho adolescente PAULO ROBERTO (Fábio Mássimo), que gosta muito de Carlão quando o conhece
a tia HORTÊNCIA (Heloísa Helena, participação), mulher posuda e esnobe, não aceita seu casamento com Carlão, com quem tem desentendimentos, por seus modos grosseiros e sem classe
o renomado advogado DR. PERES (Mário Lago, participação), a defende quando ela é processada como cúmplice no assalto. Porém, larga a causa quando descobre que Carlão, com quem ela se casou, era o taxista que ficou com a mala de dinheiro
o amante MIGUEL (Zanoni Ferrite, participação), que a envolve no assalto, no início da trama. Acaba morto no confronto com a polícia
o comparsa de Miguel, JURANDIR (Gilson Moura), a chantageia por desconfiar que ela está de posse da mala com o dinheiro. Acaba morto por ela, que não suporta a sua pressão.

– núcleo de NÉLIO PORTO RICO (Denis Carvalho), proprietário da Cítara, agência que faz a publicidade da Centauro. Sujeito boa-praça, engraçado, às vezes desajeitado. Mas extremamente profissional e exigente. Seu maior sonho era conseguir o contrato com a Centauro. Para tanto, teve que conquistar a confiança de Salviano. É quem percebe em Lucinha o potencial para tornar-se modelo. Ensina tudo a ela e a apresenta a Salviano como a moça que representará a Centauro nas passarelas. Desperta o interesse de Vilminha, que primeiro se apresenta a ele como TELMA, candidata a uma vaga de desenhista na Cítara. Aos poucos, Nélio vai se apaixonar por ela e envolver-se com seu problemas. Os dois acabam se casando:
a modelo GIGI (Sandra Barsotti), sua namorada no início, com quem mantinha uma relação tempestuosa, mais pelo ciúme dela. Mesmo depois do fim do namoro, o persegue e não aceita sua relação com Vilma. Aos poucos, vai acabar esquecendo-o. Torna-se grande amiga de Lucinha, que vai morar com ela, e lhe ensina tudo sobre a profissão
o fotógrafo CLAUDIUS LOBATO (André Valli)
a secretária VERINHA (Hortência Tayer).

– núcleo da Centauro, tecelagem de Salviano Lisboa:
o seu braço direito VALDIR (Emiliano Queiroz), começou como um simples vendedor. Soube conquistar as graças do patrão, que hoje o considera como um filho. Muito eficiente no trabalho, acredita que fará parte da herança de Salviano, a quem é extremamente leal e dedicado. Interessa-se por Vilma, vislumbrando um casamento, mas ela o trata com desprezo
a assessora DJANIRA (Maria Pompeu), solteirona despachada, mantém um nada secreto desejo de casar-se com o patrão, que desconfia de suas intenções e procura tratá-la apenas como profissional
o estilista ROGÊ (Nestor de Montemar), um tipo afetado e engraçado, confidente de Djanira em sua paixão por Salviano
o diretor ORLANDO COUTINHO (Ivan Cândido), defende os interesses de quem possa lhe garantir mais vantagens: o patrão direto ou os filhos dele, quando eles tentam afastar o pai da empresa
a secretária DONA NADIR (Nadir Fernandes), senhora eficiente, trabalha há anos diretamente com Salviano.

Um dos maiores sucessos da TV, considerada pela crítica especializada a melhor das novelas de Janete Clair.
Foi a primeira gravada em cores para o horário das oito da noite da Globo.

Em 1975, a Censura Federal proibiu a exibição da novela Roque Santeiro, das oito horas, na noite de sua estréia. Enquanto a Globo apresentava um compacto de Selva de Pedra, de 1972, procurou às pressas por uma nova trama substituta. A censura vetou três sinopses enviadas: Saramandaia, de Dias Gomes (que estrearia às 22 horas no ano seguinte), e as adaptações dos romances “O Resto é Silêncio”, de Érico Veríssimo, e “Os Cangaceiros”, de José Lins do Rêgo. Janete Clair – que havia sido “rebaixada” para os horário das sete, para o qual escrevia a novela Bravo! – se ofereceu para desenvolver uma sinopse em tempo recorde.

Enquanto passava o comando de Bravo! para Gilberto Braga, seu colaborador nessa novela, Janete apresentou Pecado Capital, considerada sua melhor novela, que representou uma mudança em seu estilo (que vinha sendo muito criticado na época). Ela deixava as tramas fantasiosas e melodramáticas e partia para o realismo, muito próximo do estilo de Dias Gomes, seu marido. A novela não tinha uma mocinha ingênua e sofredora e nem um galã romântico. Pelo contrário: Lucinha era uma batalhadora e de personalidade forte, enquanto Carlão era praticamente um anti-herói.

A autora revelou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som:
“Com a expectativa que Roque Santeiro criou, a responsabilidade de escrever sua substituta era muito grande. Mudei meu gênero. Não fiz Pecado Capital para imitar o Dias, mas, pelo menos, para me igualar um pouco ao estilo dele. Levei meu romantismo para o lado realista. Parece que em Pecado Capital em diante eu dei uma melhorada.”

A autora contou que, de Dias Gomes, apenas se inspirou levemente no universo de sua novela Bandeira Dois, povoada por bicheiros e tipos populares extraídos do subúrbio carioca.

O primeiro capítulo foi antológico: o assalto ao banco e consequentemente o dinheiro sendo deixado no táxi de Carlão. O último capítulo explicou a tragédia urbana nacional que a autora desenvolveu durante a novela. Carlão, que agira de má fé, morre assassinado entre as obras do metrô, e sua morte é notícia de jornal. No mesmo noticiário, um destaque social chama a atenção dos leitores: o casamento de Lucinha e Salviano.

Daniel Filho declarou em seu livro “Antes que me Esqueçam”:
“Na verdade Pecado Capital é uma dessas novelas que acontecem de tempos em tempos, uma dessas mágicas absurdas. (…) Para mim, Francisco Cuoco, o Carlão, não guardava o dinheiro pensando em devolver: guardava pensando mesmo em guardar. O meu Carlão era assim, e a partir daí mudava um pouco o Carlão da Janete, porque o meu era meio sacana. Assim eu mantinha o texto da Janete, mas o comportamento do Carlão ficava meio contraditório.”

E Daniel em outro livro seu, “O Circo Eletrônico”:
“Tive uma pequena discordância com Janete por conta da morte de Carlão (…) Eu tinha certeza absoluta de que ele deveria morrer, e Janete não concordava em matá-lo. Ela não queria, porque achava que mocinhos não devem morrer, apesar de o Carlão ter se tornado um marginal. Isso poderia prejudicar a próxima novela, pois o público ficaria decepcionado com o desfecho. E era por isso mesmo que eu queria sua morte: para a novela não ser sempre um jogo de cartas marcadas. Apesar disso, nossa colaboração nessa novela foi um dos melhores trabalhos que fizemos juntos.”

Na sinopse original de Janete Clair, a novela chamava-se O Medo, e o personagem Carlão era Rafa, o galã romântico, namorado de Lucinha, a moça suburbana e ambiciosa que se envolvia com o rico empresário Salviano Lisboa, o vilão da história, para ascender socialmente. Na ideia de Janete, Salviano perderia o amor de Lucinha para Rafa, porque o grande amor verdadeiro seria esse simples, puro, do subúrbio. Com Daniel Filho, a autora mudou a trama: humanizou Salviano, tornando-o um solitário, e Rafa (que passou a ser Carlão), deixou de ser o mocinho e tornou-se o anti-galã.

Daniel contou em “O Circo Eletrônico”:
“(…) Mirian Pires substituiu Elza Gomes, que foi colocar uma ponte de safena. Então mandamos o personagem da Elza visitar os parentes no interior e ela deixou a prima no lugar, a Mirian Pires, que ‘sabia’ toda a história através de cartas que a personagem da Elza mandava para ela. A gente achava que a Elza não fosse voltar. Imaginem o choro no estúdio quando ela apareceu! As cenas acabaram sendo mais exageradas do que seria a volta normal do personagem, porque na verdade todos estavam chorando a alegria da volta de Elza.”

Daniel ainda revelou nesse livro:
“(…) a proposta foi assumir uma brasilidade bem realista. Queria mostrar a miséria. Quando o Boni assistiu ao primeiro capítulo, fiquei desesperado porque já tinha gravado 10 ou 12 capítulos, e ele me pediu para refazer tudo pois estava tudo muito miserável, muito deprimente. Nós tínhamos feito um tremendo laboratório para fazer aquela novela. Não refizemos.”

Ao ler a sinopse de Pecado Capital, Betty Faria não se identificou imediatamente com a operária Lucinha. A atriz achou que a personagem tinha mais a ver com Regina Duarte do que com ela. Foi convencida a aceitar o papel por Daniel Filho, seu marido na época, e realizou um de seus melhores trabalhos na televisão. Curiosamente, dez anos mais tarde, em 1985, quando Roque Santeiro finalmente pôde ir ao ar, Regina acabou vivendo com grande sucesso a Viúva Porcina, a personagem que seria de Betty na censurada primeira versão da história.

O ator Milton Gonçalves pediu a Janete Clair que lhe desse um personagem que “usasse terno e gravata” e com isso houvesse a presença de um ator negro em papel de maior destaque, sem que fosse escravo, serviçal ou bandido. Ela desenvolveu para Milton o renomado psiquiatra Percival Garcia. Na própria trama da novela foi abordado o preconceito de cor, de parte de personagens que não se importavam com a respeitabilidade e competência do Dr. Percival, mas sim com o fato de ele ser negro. Fábio Costa em “Novela, a Obra Aberta e Seus problemas”.

Janete Clair ainda ensaiou um romance entre o Dr. Percival e a filha mais velha de Salviano, Vitória (Theresa Amayo), cujo casamento com o dominador Ernani (Dary Reys) entrava em crise. O relacionamento de um negro com uma branca seria uma forma de abordar a discriminação racial, mas o público reagiu mal e a história entre os dois não aconteceu. Vitória terminou a novela se desquitando de Ernani. Site Memória Globo.

A trilha sonora marcante teve músicas inesquecíveis, como o próprio tema de abertura, gravado por Paulinho da Viola especialmente para a novela, composta sob pressão: ficou pronta em 24 horas.
Também “Você Não Passa de uma Mulher” com Martinho da Vila, “Juventude Transviada” com Luiz Melodia, “Moça” com Wando, e o célebre tango “El Dia en que me Quieras”, gravado por César Camargo Mariano sob o pseudônimo Pablo Hernándes.

O cantor Luiz Melodia – cuja música “Juventude Transviada” era tema de Carlão – fez uma participação na novela como ele mesmo, cantando a música com Francisco Cuoco, numa serenata para Lucinha, o amor de Carlão.

Alguns cenários da versão proibida de Roque Santeiro foram aproveitados em Pecado Capital, como o pátio interno da casa de Salviano, que era o mesmo da casa da Viúva Porcina, só que pintado de outra cor.

A novela teve imagens gravadas nos bairros cariocas de Copacabana (onde estava localizada a fachada da empresa Centauro), Méier e Catete (na época em obras para a implantação do metrô).
Entre os cenários externos, estavam as fachadas da fábrica de tecidos América Fabril, em Deodoro; a boate 706 e o restaurante Mário, no Leblon; e a estação de trens da Central do Brasil. As cenas da Fábrica Centauro foram gravadas no magazine Hélio Barki, em Copacabana.
Também foram realizadas cenas nos trens urbanos, algo até então inédito em novelas. Tais cenas não constavam do script.
A sequência da morte de Carlão foi gravada no Largo da Carioca, nas obras de implantação do metrô, que ainda não operava na cidade. Somente em 1979 o meio de transporte passou a funcionar no Rio de Janeiro. A Estação Carioca foi inaugurada em 1981. Site Memória Globo.

Daniel Filho e a figurinista Marília Carneiro optaram por não confeccionar roupas para os personagens. Marília Carneiro andou pelas ruas e trocou roupas novas pelas que as pessoas usavam, entregando aos atores as peças que reuniu. Para a caracterização de Carlão, Francisco Cuoco engordou e deixou crescer o bigode e as costeletas.

Para criar um outdoor da Centauro, que levaria dois meses para ser produzido, a direção recorreu a um truque cinematográfico. A superposição de uma chapa de cristal a uma foto e a abertura total da grande angular da câmera criavam a impressão de que a foto era um outdoor verdadeiro, localizado do outro lado da rua, do ponto de vista dos personagens. Site Memória Globo.

Pecado Capital teve um remake em 1998, em que a autora, Glória Perez, baseou-se na trama e personagens da novela de Janete Clair para escrever outra novela. Francisco Cuoco, Carolina Ferraz e Eduardo Moscovis viveram Salviano, Lucinha e Carlão nesta nova versão. Desta vez, não houve sucessoo.

Lima Duarte, Betty Faria e Francisco Cuoco interpretaram personagens que marcaram definitivamente suas carreiras.
Destaque também para Débora Duarte, que interpretou Vilma, a filha problemática de Salviano Lisboa. Detalhe: na vida real, Débora é filha (de criação) de Lima Duarte, e a filha dela, Paloma Duarte, interpretou Vilma no remake da novela, em 1998.

O remake de Pecado Capital também contou com a participação de Francisco Cuoco, Betty Faria e Lima Duarte. Cuoco viveu Salviano Lisboa. Betty e Lima apareceram em participações especiais.
Mário Lago também fez participações especiais nas duas novelas, a original e o remake, vivendo o mesmo personagem: o advogado de Eunice.
Também André Valli, que, em 1975 era o fotógrafo Claudius, apareceu em 1998 como Orestes, pai de Lucinha.

Primeira novela dos atores Lauro Góes, Sandra Barsotti e Malu Rocha.

A APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) premiou Daniel Filho como o melhor diretor de 1976 por seu trabalho em Pecado Capital.
Lima Duarte e Betty Faria foram eleitos os melhores atores do ano (juntamente com Mário Lago, Yara Côrtes e Renata Sorrah, por O Casarão, e Laura Cardoso, por Os Apóstolos de Judas).
Lima Duarte também foi premiado com o Troféu Imprensa de melhor ator de 1976 (juntamente com Paulo Gracindo, por O Casarão).

Pecado Capital foi reapresentada entre janeiro e abril de 1982, às 22h15.
Também em um compacto de uma hora e meia, em 04/02/1980, como atração do Festival 15 Anos da TV Globo (apresentação de Lima Duarte).

Em 2014, a Globo Marcas lançou a novela em DVD, num box com 10 discos.

Trilha Sonora Nacional
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01. MOÇA – Wando (tema de Elizeth)
02. VOCÊ NÃO PASSA DE UMA MULHER – Martinho da Vila (tema de Lucinha)
03. EL DIA EN QUE ME QUIERAS – Pablo Hernandes y Sus Vocalistas (tema de Salviano Lisboa)
04. SE VOCÊ PENSA – Moraes Moreira (tema de Vilma)
05. MELÔ DA CUÍCA – Azimuth (tema das vinhetas de ‘estamos apresentando’)
06. PECADO CAPITAL – Paulinho da Viola (tema de abertura)
07. JUVENTUDE TRANSVIADA – Luiz Melodia (tema de Carlão)
08. MEU PERDÃO – Beth Carvalho
09. QUE BESTEIRA – João Donato (tema de Marciano)
10. O BOÊMIO – Época de Ouro (tema geral)
11. MAKAHA – Marcio Montarroyos (tema de Carlão)
12. NÃO SEI – Sônia Santos (tema de Raimundo)
13. BEIJO PARTIDO – Nana Caymmi (tema de Eunice)

Trilha Sonora Internacional
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01. LIKE ROSES – Jack Jones (tema de Lucinha)
02. ZING WENT THE STRINGS OF MY HEART – The Tramps
03. IL MAESTRO DI VIOLINO – Domenico Modugno
04. ATLANTICA – Seventy-Five Music (tema de Virgílio e Emilene)
05. WOMAN (YOU’VE GOTTA BE THERE) – Jae Mason (tema de Vicente)
06. NEVER LET ME SAY GOODBYE – Dave Ellis
07. YOU AND ME AGAINST THE WORLD – Gladys Knight & The Pips
08. HAPPY – Michael Jackson (tema de Emilene)
09. LADY BUMP – Penny McLean
10. LOVE ME LIKE A STRANGER – Lettermen (tema de Salviano Lisboa)
11. WORDS OF LOVE – David D. Robinson (tema de Carlão e Eunice)
12. AIN’T NOBODY STRAIGHT IN LOS ANGELES – The Miracles (tema de Nélio)
13. HAPPY DAYS – Montezuma
14. DOLANNES MELODIE (FLÛTE DE PAN) – Jean Claude Borelly (tema de Vilma)

Trilha Sonora Complementar: compacto com um tema instrumental
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DIALOGO D´AMORE – Mike Holm Orchestra (tema de Eunice e Carlão)

Trilha Sonora Complementar: Músicas da novela Pecado Capital – Waldir Silva e seu Regional
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CASTELO DE AMOR (tema de Emilene)
4 CORDAS QUE CHORAM (tema dos velhinhos)

Sonoplastia: Roberto Rosemberg.
Produção Musical: Guto Graça Mello

Tema de Abertura: PECADO CAPITAL – Paulinho da Viola

Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval
Na vida de um sonhador, um sonhador
Quanta gente aí se engana
E cai da cama com toda ilusão que sonhou
E a grandeza se desfaz
Quando a solidão é mais
Alguém já falou

Mas é preciso viver
E viver não é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si
Irmão desconhece irmão
E aí, dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão…

Veja também

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Selva de Pedra (1972)

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Bravo!

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Roque Santeiro (1975)

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Duas Vidas

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Pecado Capital (1998)