Sinopse

Cerca de cem anos após a chegada de Pedro Álvares Cabral e suas caravelas ao Brasil, os bandeirantes eram os donos da terra – apesar das leis do Reino de Portugal e dos jesuítas, que tentavam catequizar os índios e livrá-los dos bandeirantes, que os escravizavam. O choque entre os paulistas, que conquistavam terras e minas, e os forasteiros de diversas procedências, que queriam se apossar delas, era inevitável. A muralha significava a serra como obstáculo às incursões dos bandeirantes, nas suas buscas por novas terras e riquezas.

Na fazenda Lagoa Serena, nos arredores da Vila de São Paulo, rodeada pela “muralha” e desbravada pelos bandeirantes, mora Dom Braz Olinto, chefe de uma bandeira, sua mulher Mãe Cândida e os filhos: Leonel, casado com Margarida, Basília, casada com Afonso Góis, Tiago e Rosália. Ainda uma sobrinha, Isabel, criada entre o convívio da família e dos índios, moldando, assim, uma personalidade arredia e selvagem. Ela é o braço direito de Dom Braz, que o acompanha em suas bandeiras. Rosália, a filha caçula, dará desgosto à família Olinto, ao apaixonar-se e envolver-se com um inimigo, o aventureiro Bento Coutinho.

A trama inicia com a chegada de Portugal de outra sobrinha de Dom Braz, Beatriz, que vem ao Brasil para casar-se com Tiago. Porém, ela terá de disputá-lo com Isabel, apaixonada veladamente pelo primo. Com Beatriz, chegam o Padre Miguel, que auxiliará o jesuíta Padre Simão na catequização os índios, mas que terá de resistir ao assédio da índia Moatira, que apaixona-se por ele; Dona Antônia, uma ex-cortesã em busca de um bom casamento; e Dona Ana, uma judia que foge dos horrores da Guerra Santa e vai viver sob a tutela de Dom Jerônimo Taveira.

Dona Ana tem uma dívida moral com Dom Jerônimo: ele é irmão do inquisidor que livrou seu pai da morte em Portugal. Falsamente convertida ao catolicismo e resignada com seu destino, Dona Ana será cortejada pelo rico comerciante Dom Guilherme Shetz, um homem libertino que vive em harmonia com a natureza e as índias. Inimigo de Dom Braz Olinto, Dom Jerônimo sabe ser canalha e fingido diante das autoridades, mas não as respeita, e é carola frente aos padres, mas na realidade é um homem cruel, que aprisiona Ana em sua propriedade para satisfazer seus desejos mais perversos.

Globo – 23h
de 4 de janeiro a 31 de março de 2000
51 capítulos

minissérie de Maria Adelaide Amaral
baseada no romance homônimo de Dinah Silveira de Queiroz
escrita por Maria Adelaide Amaral, João Emanuel Carneiro e Vincent Villari
direção de Luís Henrique Rios
direção geral de Denise Saraceni e Carlos Araújo
núcleo Denise Saraceni

MAURO MENDONÇA – Dom Braz Olinto
VERA HOLTZ – Mãe Cândida
ALESSANDRA NEGRINI – Isabel
LEONARDO BRÍCIO – Tiago
LEANDRA LEAL – Beatriz
TARCÍSIO MEIRA – Dom Jerônimo Taveira
LETÍCIA SABATELLA – Dona Ana Cardoso
ALEXANDRE BORGES – Dom Guilherme Shetz
CACO CIOCLER – Bento Coutinho
MATEUS NACHTERGAELE – Padre Miguel
MARIA MAYA – Moatira
PAULO JOSÉ – Padre Simão
DEBORAH EVELYN – Basília
CELSO FRATESCHI – Afonso Góis
LEONARDO MEDEIROS – Leonel
MARIA LUÍSA MENDONÇA – Margarida
REGIANE ALVES – Rosália
ANDRÉ GONÇALVES – Apingorá
STÊNIO GARCIA – Caraíba
ADA CHASELIOV – Leonor
CLÁUDIA OHANA – Dona Antônia
PEDRO PAULO RANGEL – Mestre Davidão
CARLOS EDUARDO DOLABELLA – João Antunes
ÂNGELO PAES LEME – Vasco Antunes
SÉRGIO MAMBERTI – Dom Cristóvão
EDWIN LUISI – Dom Gonçalo
CECIL THIRÉ – Dom Bartolomeu
EMILIANO QUEIRÓZ – Dom Falcão
CACÁ CARVALHO – Frei Carmelo
EWIRGES RIBEIRO “BUMBA” – Genoveva
ENRIQUE DIAZ – Aimbé
PATRICK OLIVEIRA – Tuiú
JOÃO PEDRO RORIZ – Parati
RITA MARTINS – Iamê
e
CARLOS COTIGLIERI – sacristão
CHICO EXPEDITO – bandeirante
ELIAS ANDREATTO – Dom Cardoso (pai de Don´Ana)
IRVING SÃO PAULO – capanga de Bento Coutinho
JOSÉ DE ABREU – Inquisidor-Mor
JOSÉ WILKER – Dom Diôgo
LUÍS MELLO – Dom Manoel Nunes Viana
MAC SUARA – cacique
MARCOS e PEDRO FUCHS – Pedro Afonso / Aimbô (filho de Moatira)
MÔNICA TORRES – Dona Joana (amiga de Dona Antônia que vem a São Paulo no último capítulo)

O livro “A Muralha” é um romance histórico ufanista escrito por Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), lançado em 1954 em comemoração aos 400 anos da cidade de São Paulo. Sua trama celebra a coragem e a valentia de bandeirantes que desbravaram as fronteiras do país.

A minissérie da Globo foi a quarta adaptação do livro para a TV. As anteriores foram exibidas como novelas.
As duas primeiras adaptações foram ao ar quando as telenovelas ainda não eram diárias: em 1958, na TV Tupi, e em 1963, na TV Cultura. A terceira adaptação foi um sucesso da TV Excelsior, em 1968, adaptada por Ivani Ribeiro.

Esta versão da Globo, adaptada por Maria Adelaide Amaral e seus colaboradores (João Emanuel Carneiro e Vincent Villari), tornou-se um grande momento da televisão, onde quase tudo chegou à perfeição. Uma superprodução levada ao ar em um ano em que se tinha muito para comemorar: 35 anos de aniversário da TV Globo, 50 anos de TV no país, e 500 anos de Descobrimento do Brasil (a minissérie abordava os primeiros anos da colonização portuguesa no país).

Em 1999, Daniel Filho, então diretor artístico da Globo, solicitou aos autores Dias Gomes, Lauro César Muniz, Sérgio Marques, Ferreira Gullar e Maria Adelaide Amaral e mais cinco diretores de núcleo que apresentassem projetos de minisséries históricas (de no mínimo 8 capítulos e no máximo 24) para comemorar os 500 anos de Descobrimento do Brasil no ano seguinte, 2000. Cada um sugeriu um período: Dias sobre Getúlio Vargas, século 20; Lauro sobre Castro Alves, século 19; Sérgio Marques sobre Chico Rei, século 18; e Ferreira Gullar sobre as invasões holandesas, século 17. A Maria Adelaide sobrou o século 16 e ela sugeriu uma adaptação do livro “A Muralha”.

Para recontar essa história, Maria Adelaide mudou o tempo da ação. O romance original acontecia no século 18 e tinha como pano de fundo a Guerra dos Emboabas. A autora trouxe a trama para o final do século 16 e mostrou o início da colonização do Brasil, a luta pela sobrevivência dos portugueses em uma terra estranha e selvagem, época em que os bandeirantes paulistas desbravavam terras e escravizavam os índios enquanto os primeiros jesuítas chegavam ao Brasil.
“Quando fui ler o romance da Dinah Silveira de Queiroz, descobri que a ação se passava em 1708 e não no século 16 como eu tinha imaginado (…) o jeito é fazer retroagir a ação histórica, colocar a trama em 1599 (…) Vou falar sobre o primeiros habitantes brancos, índios e mestiços de São Paulo de Piratininga”, disse Maria Adelaide ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia”, do Projeto Memória Globo.

As demais minisséries históricas inicialmente pensadas não foram levadas adiante. Assim, dos 24 capítulos previstos, A Muralha dobrou sua duração, fazendo a autora criar personagens e tramas que não existem no livro original – como o núcleo de Dom Jerônimo (Tarcísio Meira), que chegou a liderar o interesse do público.

Inicialmente escalado para interpretar o bandeirante Dom Braz Olinto, Tarcísio Meira, depois de ler a sinopse, pediu à diretora Denise Saraceni para trocar de personagem. Ele abriu mão do protagonista para viver Dom Jerônimo Taveira, um vilão vil e cruel. Foi um dos melhores momentos de Tarcísio na televisão, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator de 2000 da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). A associação também concedeu à minissérie o Grande Prêmio da Crítica de 2000.

Com a desistência de Tarcísio Meira, o papel de Dom Braz Olinto ficou com Mauro Mendonça, personagem que o ator já havia interpretado na novela da Excelsior, em 1968. Naquela ocasião, Mauro tinha 37 anos de idade, o que exigiu amplos recursos de maquiagem para caracterizá-lo como um homem com cerca de 70 anos. Em 2000, aos 67 anos, o ator se encontrava com a idade ideal para interpretar o personagem.

Além de Tarcísio Meira e Mauro Mendonça, outros destaques do elenco foram Letícia Sabatella, como a sofrida Dona Ana, algoz do vilão Dom Jerônimo; Mateus Nachtergaele, como o jovem padre que sofre ao por em dúvida sua vocação cristã perante os horrores da nova terra; e Alessandra Negrini, irrepreensível em sua personagem, a rústica Isabel.

A questão da fé foi amplamente trabalhada, na abordagem tanto da catequização dos índios quanto da perseguição a judeus e hereges.

Para a produção da minissérie, mobilizou-se uma equipe de 200 pessoas. Caciques e pajés de tribos brasileiras acompanharam a montagem de várias cidades cenográficas que envolviam suas aldeias. Construída perto do Projac, a Vila de São Paulo ocupou uma área de 10 mil metros quadrados.

O mais grandioso dos cenários foi o de Lagoa Serena, onde, na trama, morava a família Olinto. Utilizou-se como locação uma fazenda situada na cidade de Cachoeira de Macacu (RJ), com uma área de 10 mil metros quadrados. Foram utilizadas ainda três aldeias indígenas, onde se ergueram quatro ocas.

A produção de A Muralha contou com o apoio da Funai e a participação de 51 índios xavante do Alto Xingu, 20 kamaiurá e 20 waurá, além de índios guarani e um coral infantil formado por índios da aldeia Paratimirim. O Ibama também forneceu apoio diário à produção, com a presença de uma bióloga e um veterinário nas gravações em estúdio e em externas, para cuidar dos animais – araras, capivaras, jaguatiricas, onças, emas, macacos, cobras e veados – usados nas cenas.

Sobre a caracterização dos personagens, Maria Adelaide Amaral contou ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia”:
A Muralha foi uma produção impecável com zero de glamour. Quando Daniel Filho viu as primeiras cenas, ficou assustado porque não tinha a menor ideia de como o público reagiria diante daquele visual tão despojado. Os vestidos das mulheres eram enlameados, as atrizes quase não usavam maquiagem, mas o público reagiu fantasticamente.”

Para o tema de abertura da minissérie, foi usada uma música escrita por Villa-Lobos especialmente para o filme A Flor que não Morreu (1959), de Mel Ferrer. Daniel Filho comentou em seu livro “O Circo Eletrônico”:
“Como aquele trecho usado na abertura não terminava, cometi o sacrilégio de acrescentar um acorde para encerrar a música. Na hora em que o índio aparecia, pedi para o Serginho Saraceni [produtor musical] repetir uma nota. (…) Foi um desespero para o Saraceni colocar um acorde na música composta e regida por Villa-Lobos. Mas ninguém reclamou. Ou notou.”

O sucesso da minissérie A Muralha impulsionou a venda de mais de 18 mil exemplares do romance que a originou, há muitos anos fora de catálogo.

Primeiro trabalho de João Emanuel Carneiro na televisão, aceitando um convite do diretor Daniel Filho. Ele vinha do sucesso do filme Central do Brasil (1998), que roteirizou com Marcos Bernstein. De acordo com o depoimento de João Emanuel ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia”, Daniel Filho queria alguém para dar um ar mais cinematográfico à produção. Ele afirmou ainda que se dedicava mais ao núcleo de Dom Jerônimo (Tarcísio Meira).

Estreia na Globo da atriz Regiane Alves e do ator Leonardo Medeiros.

A minissérie foi reapresentada de 17/08 a 30/09/2004, em forma compacta (39 capítulos), apenas para o Distrito Federal, após o Jornal Nacional, quando no resto do país era exibido o Horário Eleitoral Gratuito.
Reprisada também entre 21/01 e 31/03/08 (em 51 capítulos) no Faixa Comentada do Futura (canal de TV por assinatura pertencente à Rede Globo).
Reprisada ainda no Viva (outro canal de TV a cabo da Globo), às 23h45, em duas ocasiões: de 15/03 e 24/05/2011, e de 29/06 a 07/09/2015.

Em 2002, A Muralha foi lançada em DVD.

muralha00t
01. A MURALHA
02. CHEGADA DAS CARAVELAS
03. ANA E GUILHERME
04. PADRE MIGUEL E MOATIRA
05. EPOPÉIA DOS BANDEIRANTES
06. BEATRIZ E THIAGO
07. O CÁRCERE
08. LAGOA SERENA
09. ROSÁLIA E BENTO
10. SÃO PAULO DE PIRATININGA
11. DEPOIS DA BATALHA
12. MARGARIDA E LEONEL
13. INVASÃO DA ALDEIA
14. D. JERÔNIMO TAVEIRA
15. TOCAIA
16. MARTÍRIO DE DON´ANA
17. O FILHO DE ISABEL (ACALANTO)
18. ANA E GUILHERME (final)
19. RIBEIRÃO DOURADO
20. BEATRIZ E THIAGO (final)

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