Sinopse

Malu, casada há treze anos com Pedro Henrique, com uma filha adolescente, Elisa, descobre a infidelidade do marido e começa a questionar sua vida e sua rotina doméstica. Recém-divorciada, ela passa a enfrentar o mundo à sua volta em busca de suas verdades. E precisa voltar a trabalhar fora e sustentar a casa e a filha.

As histórias mostram as dificuldades da mulher brasileira, madura e divorciada, a se posicionar na sociedade, na família e em uma nova relação afetiva. Malu passa por diversas tentativas frustradas na busca de um emprego: faz traduções, vende roupas, escreve contos e até canta em boates. Além disso, culpa-se por deixar a filha sozinha para trabalhar.

Globo – 22h
de 24 de maio de 1979
a 22 de dezembro de 1980

criação de Daniel Filho, Armando Costa, Lenita Plonczynski, Renata Pallottini e Euclydes Marinho
direção de Daniel Filho, Paulo Afonso Grisolli e Denis Carvalho
direção geral de Daniel Filho

REGINA DUARTE – Malu
DENIS CARVALHO – Pedro Henrique
NARJARA TURETTA – Elisa
e
ANTÔNIO PETRIN – Gabriel Fonseca
ARTHUR COSTA FILHO – Armando
CARLOS KOPPA
CECIL THIRÉ
CHRISTIANE TORLONI – Sandra
CIDNHA MILAN – Eunice
DORINHA DUVAL
DUSE NACARATTI – Dorothy
ELZA GOMES – Alice
FÁBIO JÚNIOR – Jorginho
FÁBIO SABAG – Dr. Pompeo
FÁTIMA FREIRE – Milena
GIANFRANCESCO GUARNIERI – Duca
GRACINDO JÚNIOR – Celso
ISAAC BARDAVID – Xavier
LUCÉLIA SANTOS – Jô (Josineide)
LÚCIA ALVES – Gilda Amorim
MARIA SILVIA – Dalva
MARÍLIA PÊRA – Clarice
NATÁLIA DO VALLE – amiga de Malu
PAULO FIGUEIREDO – Mário
RICARDO BLAT – José Carlos
RICARDO PETRÁGLIA – Amorim
RUTHINÉIA DE MORAES – Vera
SÔNIA GUEDES – Elza
VANDA LACERDA – Dora
YONÁ MAGALHÃES – Alba
ZAIRA ZAMBELLI – Julinha

acabou-se o que era doce
bendito o fruto
de repente, tudo novamente
ainda não é hora
muitos anos de minha vida
a subversiva
hospício geral
o silêncio de deus
com unhas e dentes
pesadelo
solidão, feminino plural
em terra de cego, quem tem um olho é expulso
o doce inferno da burguesia
até sangrar
o último lance
futura madrasta
a amiga
histórias nada românticas
felicidade
gabriel não é arcanjo
antes dos quarenta, depois dos trinta
bill cuba libre não morreu
infidelidade
o reencontro
exige-se boa aparência
com que roupa ?
elisa mulher
o melhor tempo de amar
romeu, julieta e suas mães
sentindo na própria pele
parada obrigatória
crescendo em guerra e paz
filhos, melhor não tê-los
patinho feio, de repente é cisne
nossos casamentos, hoje
em legítima defesa da honra e outras loucuras
animais de sangue quente
jovem, você tem que ser alguma coisa na vida
duas vezes mulher
uma coisa que não seu certo
a trambiqueira
simplicidade voluntária
o príncipe encantado
crônica de um natal

Em maio de 1979, a Globo lançou, às 22 horas, o projeto Séries Brasileiras, com Carga Pesada, exibida às terças-feiras, Malu Mulher, às quartas, e Plantão de Polícia, às sextas.
Em seu primeiro ano (1979), Malu Mulher foi exibida às quintas-feiras, às 22 horas. No segundo ano (1980), passou para as segundas-feiras, às 22h15.

Exportada para mais de 55 países, Malu Mulher tornou-se um marco na televisão brasileira. Malu (Regina Duarte) era uma mulher de ideias liberais, que se separava do marido machista, rompia com os pais castradores e ia à luta pelos seus direitos, de mãe, cidadã, mulher. O programa fez sucesso por abordar de forma corajosa e inédita em nossa TV questões muito delicadas para uma época em que o país vivia sob o jugo da ditadura militar – feminismo, sexo, orgasmo, aborto, virgindade, métodos anticoncepcionais, gravidez indesejada, violência doméstica, etc.

Com o seriado, Regina Duarte tentava quebrar definitivamente o estigma de “Namoradinha do Brasil”, que a perseguia por causa de seus papeis de mocinha romântica em novelas. Um processo iniciado em 1977, com a novela Nina, e que teve seu ápice quando viveu a Viúva Porcina em Roque Santeiro, entre 1985 e 1986.

Vendida para cerca de 52 canais de televisão de diversos países, o seriado recebeu o Prêmio Ondas 79, concedido pela Sociedade Espanhola de Radiodifusão e pela Rádio Barcelona, como melhor programa de televisão da América Latina, e o prêmio Íris 80, concedido pela Associação Americana de Programadores de Televisão, como melhor produção estrangeira exibida pela TV americana.
No Brasil, Malu Mulher foi eleita pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) a melhor série de TV de 1979. Regina Duarte levou o prêmio de melhor atriz de 1979 (juntamente com Fernanda Montenegro, pela novela Cara a Cara, Nicette Bruno, por Como Salvar Meu Casamento, e Cleyde Yáconis, por Gaivotas), e Narjara Turetta o prêmio de revelação (juntamente com José Dumont, pela série Carga Pesada). Em 1980, Regina Duarte voltou a ser premiada a melhor atriz (dessa vez com Tônia Carrero, pela novela Água Viva, e Dercy Gonçalves, por Cavalo Amarelo).

Daniel Filho, diretor e idealizador do projeto, revelou em seu livro “Antes que me Esqueçam” que a ideia de Malu Mulher surgiu depois que ele assistiu nos Estados Unidos, em 1978, ao filme Uma Mulher Descasada, de Paul Mazursky:
“Quando Uma Mulher Descasada estreou no Brasil, tive medo de que descobrissem o plágio. Ninguém disse nada. Quando o programa começou a ser vendido para o exterior, o medo aumentou. Continuaram sem dizer nada. Mas até hoje, se ouço o nome de Paul Mazursky, fico com medo de que ele apareça na minha frente dizendo: ‘Ah, foi você que me roubou?'”

O nome de Marília Pêra chegou a ser cogitado para interpretar Malu, mas desde o início Daniel Filho queria Regina Duarte para o papel. (“Antes que me Esqueçam”, Daniel Filho)

Em seu livro “O Circo Eletrônico”, Daniel Filho narrou como montou a equipe de trabalho:
“Reuni uma equipe, na maioria mulheres. Regina Duarte, que eu queria engajada no projeto para assumir a maternidade da série. Eu era o pai. Cristina Médicis (produtora de arte e pesquisadora), Marília Carneiro (figurinista), Graça Motta (produtora de elenco), Maria Carmem Barbosa (ainda como produtora) e sua assistente Denise Saraceni. Autores: Renata Pallottini, Lenita Plonczynski, Armando Costa e Euclydes Marinho (que pediu para sair do Plantão de Polícia pois achava o projeto de Malu mais a sua cara). Mais os diretores Denis Carvalho e Paulo Afonso Grisolli.”

Para o figurino de Malu Mulher – a cargo de Marília Carneiro – a proposta era o realismo. Em casa, Malu usava jeans com camisão, meia, caneta para prender o cabelo e acordava de cara lavada. Daniel Filho comentou em “O Circo Eletrônico”:
“A Marília usou seus próprios hábitos na Malu. (…) Marília conseguia dar naturalismo com bom gosto e acrescentava com talento o que eu desejava.”

A socióloga Ruth Cardoso (1930-2008), ex-primeira-dama do Brasil, então amiga de Regina, participou de uma reunião de criação do seriado. Chegou-se ao consenso de que Malu seria socióloga. Por indicação de Dona Ruth, a equipe de pesquisa foi para a Unicamp, em Campinas, que na época era o polo em sociologia no Brasil. (“O Circo Eletrônico”, Daniel Filho)

O episódio de estreia, “Acabou-se O Que Era Doce”, abordava o processo de separação de Malu e Pedro Henrique (Denis Carvalho), definia os personagens e dava início a uma mudança radical em suas vidas. Para isso, o telespectador acompanhou de perto as discussões de Malu e Pedro Henrique, as brigas mais violentas, a insegurança da filha e a evidente desarmonia do lar, além da interferência dos familiares e do processo de desquite e separação de bens.
Logo neste primeiro episódio, Malu recebe no rosto um tapa de seu marido, revidando em seguida. Nos bastidores da cena, Daniel Filho instruiu Regina Duarte a bater de verdade no ator Denis Carvalho, que aparece no vídeo fazendo cara de espanto após levar o tabefe. (“Almanaque da TV”, Bia Braune e Rixa)

O primeiro ano do seriado mostrou as dificuldades de Malu na tentativa de se virar sozinha e conseguir um emprego para manter a casa e sustentar a filha. No segundo ano, a protagonista estava mais amadurecida e conseguia um trabalho fixo em um instituto de pesquisa. Com isso, iniciou-se uma nova fase em sua vida: a tranquilidade proporcionada pela quitação do apartamento, a compra de um carro em bom estado e a contratação de uma empregada. Com essa estabilidade, Malu estava preparada para pensar mais em si mesma e em seus problemas, pronta a recomeçar sua vida afetiva.

A televisão brasileira demorou 29 anos para sentir seu primeiro orgasmo! Malu nos deu este prazer no episódio “De Repente, Tudo Novamente”, exibido em 07/06/1979, escrito por Armando Costa e dirigido por Paulo Afonso Grisolli. Na cena de sexo com Mário (Paulo Figueiredo), a câmera focalizou a mão fechada da personagem de Regina Duarte, abrindo-se como em um espasmo. Na mesma história, Malu foi vista ingerindo uma pílula anticoncepcional.
Na semana seguinte, em 14/06/1979, a personagem Jô (Lucélia Santos) fez um aborto em uma clínica clandestina, no episódio “Ainda Não é Hora”. Foi o próprio Boni – José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, então executivo da Globo – que autorizou a equipe de criação a ousar nos temas, que andavam muito amenos na televisão. (“Almanaque da TV”, Bia Braune e Rixa)

O atrito com a censura do Governo Federal foi inevitável. Daniel Filho comentou em seu livro:
“O programa começou a ter problemas com a censura. (…) Lembro, por exemplo, das várias discussões a respeito de um texto de Manoel Carlos, “Até Sangrar”, onde ele falava da perda da virgindade. Perguntavam a Malu se doía, e ela respondia: ‘Dói, mas só até sangrar.’ Isso era repetido umas três vezes ao longo do programa, mas aplicado a situações diferentes. Perguntavam se era difícil separar, e ela respondia: ‘Dói, mas só até sangrar’. Fui chamado pela direção da Globo, que já começava a sofrer pressões. A pressão em cima de mim, enquanto isso, foi ficando cada vez mais forte. Os roteiros mudavam demais, e a cada programa, Malu mostrava uma personalidade diferente.”

Lançado em 1979, momento de abertura política no Brasil, Malu Mulher só foi possível por causa da mudança de governo (do presidente Geisel para Figueiredo). Ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia”, do Projeto Memória Globo, Euclydes Marinho, um dos roteiristas, comentou:
“O programa falava de assuntos dos quais a televisão não falava, dos problemas mais reais da vida (…) Não se falava muito da realidade, até porque a realidade era completamente censurada. (…) Um ano antes, não teria acontecido. Teria ido ao ar outro Malu Mulher: uma sitcom boba passada em uma fábrica [a primeira versão do programa, no momento de sua criação].”

Na primeira leva de programas gravados, Boni não gostou do que viu e mandou refazer. Ele contou em seu “Livro do Boni”:
“Quando [Daniel Filho] me levou o primeiro programa prontinho, gelei. Estava uma tristeza. Chamava-se ‘Dedos Ligeiros’ e mostrava a Regina Duarte, recém-separada, disputando um concurso no programa Silvio Santos, concorrendo a uma grana e ao título de ‘a mais veloz datilógrafa’. Surtei:
‘Daniel, não é nada disso. Quem vai assistir a uma bobagem dessas?’
‘Merda! Temos oito textos assim.’
‘Lixo. Vamos jogar no lixo.’
‘Graças a Deus! Eu não estava acreditando nisso. Agora senti. Você quer chumbo grosso, isso?’
‘É, Daniel, porrada. Discussão pra valer sobre a nova mulher. Drama. Como você mesmo disse: chumbo grosso!’

Regina Duarte e Daniel Filho viveram um romance que começou na concepção de Malu Mulher e durou exatamente o tempo do programa. Os dois foram a Cuba receber uma homenagem pelo seriado. No teatro Karl Marx, uma multidão de cinco mil pessoas compareceu especialmente. No livro “Antes que me Esqueçam”, Daniel descreveu a declaração carinhosa que recebeu de Regina diante de todas aquelas pessoas:
“Muitas vezes, quando ando na rua, as pessoas me apontam e dizem que acham Malu Mulher fabulosa e me incentivam, emocionadas. Dizem que sou a mãe da Malu. Bem, agora eu quero que vocês saibam que, se eu sou a mãe, está na hora de todo mundo conhecer o pai da Malu: Daniel Filho!”
Daniel completou: “E acho que Regina tinha toda razão: do nosso amor nasceu uma filha, chamada Malu Mulher.”

Regina Duarte voltou aos seriados com Joana, em 1984, e Retrato de Mulher, em 1993.

Primeiro trabalho da atriz Narjara Turetta na Globo – com 12 na época da estreia -, vinda das novelas da TV Tupi de São Paulo.

No rastro do sucesso de Malu Mulher, a Globo exibiu, em dezembro de 1979, na faixa Sexta Super, o especial musical Mulher 80. Com direção de Daniel Filho e apresentação de Regina Duarte, o programa reuniu números musicais e depoimentos de cantoras brasileiras em voga na época, tendo como foco principal a atuação feminina na Música Popular Brasileira. Participaram: Elis Regina, Fafá de Belém, Gal Costa, Joanna, Maria Bethânia, Marina, Rita Lee, Simone, Zezé Motta e as integrantes do Quarteto em Cy. Várias das músicas faziam parte da trilha sonora da série, então lançada comercialmente em LP e K7.

A música “Começar de Novo” foi composta por Ivan Lins e Vítor Martins especialmente para a abertura de Malu Mulher. Maria Bethânia foi convidada a interpretá-la, mas não quis. Simone, que não tinha ainda uma grande projeção na época, aceitou gravá-la. No rastro do êxito do seriado no exterior, a canção acabou sendo sucesso também, recebendo gravações de Barbra Streisand e Sarah Vaughan. (“O Circo Eletrônico”, Daniel Filho)

O primeiro episódio foi reapresentado em junho de 1985, no Festival 20 Anos da TV Globo. Em março de 1995, dentro do Festival 30 Anos, alguns episódios foram reprisados durante uma semana.

Em 2006, Malu Mulher teve alguns episódios lançados em DVD enquanto a Som Livre relançou a trilha sonora em CD, dentro da coleção Masters Trilhas.

Trilha Sonora

01. COMEÇAR DE NOVO – Simone (tema de abertura *)
02. O BÊBADO E A EQUILIBRISTA – Elis Regina
03. MANIA DE VOCÊ – Rita Lee
04. ÁLIBI – Maria Bethânia
05. QUE ME VENHA ESSE HOMEM – Fafá de Belém
06. SEU CORPO – Joanna
07. PAULA E BEBETO – Gal Costa
08. DOIS MENINOS – Maysa
09. NÃO HÁ CABEÇA – Marina
10. PECADO ORIGINAL – Zezé Motta
11. FEMININA – Quarteto Em Cy

* O tema de abertura era uma versão instrumental da música

Pesquisa de Repertório: Arnaldo Schneider
Produção Musical: Guto Graça Mello

Tema de Abertura: COMEÇAR DE NOVO – Simone *

Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Ter me rebelado
Ter me debatido
Ter me machucado
Ter sobrevivido
Ter virado a mesa
Ter me conhecido
Ter virado o barco
Ter me socorrido

Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Sem as tuas garras
Sempre tão seguras
Sem o teu fantasma
Sem tua moldura
Sem tuas escoras
Sem o teu domínio
Sem tuas esporas
Sem o teu fascínio

Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Já ter esquecido…

Veja também

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Nina

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Roque Santeiro (1985)

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Retrato de Mulher