Sinopse

Eloá é uma mulher inteligente e ambiciosa, em busca de projeção social e profissional. Para tal, empenha-se para se destacar na empresa de engenharia onde trabalha com o marido Osmar, a Fraga Dantas S.A. Osmar é um sujeito acomodado, sem grandes ambições, que não tem as mesmas perspectivas de ascensão que a mulher.

Durante uma festa, Eloá, frustrada por não ter conseguido uma promoção, conhece o misterioso e envolvente Raul, que lhe garante que poderá fazer com que ela cresça em seu trabalho. Eloá começa a se destacar profissionalmente e sua ascensão acompanha, de maneira inversa, a derrocada de Osmar, gerando uma crise em seu até então inabalável casamento.

A situação entre os dois fica insustentável quando Eloá assume um cargo de direção e, por chantagem de Raul, é obrigada a demitir o marido. Com a influência de Raul, ela se torna presidente da empresa no exterior e viaja para o Cairo. Cansada de ser atormentada por Raul, Eloá decide voltar e descobrir o que há por trás do pacto que fez com este homem.

Na mansão da rica família Fraga Dantas, a desconhecida Tereza se emprega como enfermeira com o objetivo de conquistar o patriarca, o viúvo Alfredo, e por fim aos seus problemas financeiros. Porém, este casamento e o pacto de Eloá e Raul fazem parte do plano de vingança de Tereza contra Osmar, homem que ela amou no passado, mas foi preterida por Eloá.

Raul promete a Tereza que pode fazer Osmar se apaixonar por ela, mas com uma condição: ela teria que matar Alfredo Fraga Dantas. Tereza prepara a injeção letal, mas recua. A enfermeira, então, revela a Osmar que foi ela quem fez Raul se aproximar de Eloá, no intuito de separar o casal. A partir de então, desiste do amado, pois sabe que ele ama Eloá.

Osmar decide investigar a razão de Raul desejar a morte de Alfredo e descobre que seu irmão, Amauri, é quem está por trás de tudo. Ao longo da trama, Alfredo se envolve com Lúcia Gouveia, paixão de Amauri, e se casa com ela, uma mulher arrivista que busca a estabilidade por meio de casamentos vantajosos. Revoltado, Amauri planeja matar o rival.

Globo – 20h
de 26 de novembro de 1984
a 21 de junho de 1985
179 capítulos

novela de Gilberto Braga
colaboração de Leonor Bassères
direção de Denis Carvalho, Ricardo Waddington e Jayme Monjardim
direção geral de Denis Carvalho

Novela anterior no horário
Partido Alto

Novela posterior
Roque Santeiro

GLÓRIA MENEZES – Tereza Fonseca
ANTÔNIO FAGUNDES – Osmar Pelegrini
DÉBORA DUARTE – Eloá Pelegrini
HUGO CARVANA – Alfredo Fraga Dantas
JOANA FOMM – Lúcia Gouveia
MARCOS PAULO – Cláudio Fraga Dantas
ZEZÉ MOTTA – Sônia Nascimento Rangel
FLÁVIO GALVÃO – Raul Monteiro
STÊNIO GARCIA – Amauri Pelegrini
LAURO CORONA – Rafael Mota
MALU MADER – Bia (Beatriz Fraga Dantas)
CAÍQUE FERREIRA – Zeca (José Carlos Maciel)
ELOÍSA MAFALDA – Guiomar da Silva Mota
RENATA FRONZI – Zoraide da Silva Cordovil (Zora Zanini)
ANDRÉA BELTRÃO – Ângela Mendes Machado
LUIZA TOMÉ – Alice Gouveia
MILA MOREIRA – Cristina Werneck
MARCELO PICCHI – Olavo Fraga Dantas
LÍLIA CABRAL – Margarida Meirelles Fraga Dantas
ISABELA GARCIA – Heloísa Fonseca
ÍRIS BRUZZI – Vânia Fonseca
ODILON WAGNER – Rogério Cerqueira
TÂNIA SCHER – Nádia
JOSÉ DE ABREU – Vitor
RUTH DE SOUZA – Jurema Nascimento Rangel
CLEMENTINO KELÉ – Floriano
DUSE NACARATTI – Virgínia Mercier
ROSANE GOFMAN – Jalusa Cardoso Hernandes
COSME DOS SANTOS – Vanderlei Jardim
ZENI PEREIRA – Odete
YAÇANÃ MARTINS – Shirley Neves
MARIA HELENA PADER – Palmira Catanhede
JOÃO PAULO ADOUR – Orlando
JOSÉ DUMONT – Darci
CIDINHA MILAN – Neide
NILSON ACIOLLY – Horácio
MASSAROCA – Alípio Mazzoni Silva

as crianças
SELTON MELLO – Ronaldo
GIOVANNA PIECK – Isabel
DAPHNÉ BASTOS – Margareth
ELIANE NEVES – Laurinha
ALEXANDRE GARCIA – Ricardo

e
ADELAIDE PALETTE (ADELAIDE CONCEIÇÃO) – faxineira na Fraga Dantas
ADRIANA BÔSCOLI
ALCIDES MELLO – diretor da Fraga Dantas
ALEXANDRE MENEZES
ANA LÚCIA TORRE – Olga
ÂNGELA AVILLES – Lurdes (empregada de Cristina)
BIA SEIDL – Laís Monfort (namorada de Zeca, no início)
CIELLA GUERREIRO – empregada de Zeca
CINIRA CAMARGO – Silvia Abrantes (secretária de Rogério)
FERNANDO CARVALHO – engenheiro na Fraga Dantas
IDA GOMES – Hemengharda (enfermeira de Alfredo, no final)
ILKA SOARES – Márcia (amiga de Cristina)
IVAN MESQUITA – Inspetor Andrade (investiga um roubo, no início)
JOANA ROCHA – Eliete (empregada de Sônia)
JOYCE DE OLIVEIRA – Isabel Fraga Dantas (primeira mulher de Alfredo)
MELISSE MAIA – telefonista na Fraga Dantas
MOACIR PRINA – diretor da Fraga Dantas
NEWTON PRADO
PASCHOAL VILLABOIM – Luiz (assistente de Rangel na marcenaria)
PAULA LEAL – arrumadeira na casa de Alfredo
PAULO BETTI – Murilo (fotógrafo, primo de Zeca)
PAULO HENRIQUE SOUTO – jardineiro na casa de Alfredo
RICARDO CUNHA – engenheiro na Fraga Dantas
ROBERTO MARCONI – engenheiro na Fraga Dantas
SÉRGIO MAIA – Ivan Sarmento (jornalista, noivo de Sônia, no início)
SÔNIA AYRES – babá de Margareth
TURÍBIO RUIZ – Machado (pai de Ângela, morre no primeiro capítulo)
VERA HOLTZ – amiga de Eloá
WALDIR ONOFRE – Seu Rangel (Antônio Rangel, primeiro marido de Jurema, pai de Sônia e Laurinha, morre no início)
WALDIR SANTANNA – César (motorista de Alfredo)

– núcleo de TEREZA FONSECA (Glória Menezes), enfermeira modesta, viúva e bonita, mãe de uma adolescente. Emprega-se na mansão de uma rica família. Com seu temperamento doce e firme, pouco a pouco resolve os problemas da casa e se torna uma pessoa importante para todos, arrebatando, até mesmo, o coração do patriarca, um homem viúvo:
a filha HELOÍSA (Isabela Garcia), garota interesseira, está cansada das dificuldades financeiras em que vive com a mãe e sonha casar com um rapaz rico
a irmã VÂNIA (Íris Bruzzi), mulher bem humorada, trabalha em um salão de beleza.

– núcleo de ELOÁ PELEGRINI (Débora Duarte), mulher otimista, ótima esposa e mãe, mantem uma relação madura e carinhosa com a família. De classe média, passando por dificuldades financeiras, trabalha como engenheira em uma empresa de construção civil, juntamente com o marido. Batalhadora e ambiciosa, acredita em seu potencial e luta para ascender profissionalmente. Conhece um homem misterioso, com quem faz um pacto. É promovida e, aos poucos, se transforma em uma poderosa mulher de negócios, o que compromete a relação com o marido:
o marido OSMAR (Antônio Fagundes), engenheiro como a mulher, trabalha na mesma empresa de construção civil que ela. De temperamento mais dócil e acomodado, não alimenta as mesmas ambições profissionais que sua parceira. Inicialmente, tem um cargo ligeiramente superior ao da mulher. Eloá, no entanto, é mais competente que ele. A relação do casal degringola após a carreira dela deslanchar
o filho RONALDO (Selton Mello), garoto esperto, amado pelos pais
o cunhado AMAURI (Stênio Garcia), irmão de Osmar. Homem introspectivo, embora atencioso. É um ex-presidiário que já cumpriu sua dívida com a sociedade. Vive modestamente, sem grandes ambições, calado em seu canto
a empregada SHIRLEY (Yaçanã Martins), enxerida e curiosa, é fã dos patrões
o amigo de Osmar, DARCI (José Dumont), mestre de obras, e sua mulher NEIDE (Cidinha Milan)
e VITOR (José de Abreu), surge no decorrer da trama para se envolver com Eloá, quando seu casamento entra em crise.

– núcleo de ALFREDO FRAGA DANTAS (Hugo Carvana), empresário poderoso, dono da empresa de construção civil ondem trabalham Osmar e Eloá. Homem prepotente, autoritário, reacionário e preconceituoso. Viúvo, acaba envolvido pela enfermeira Tereza, por quem se apaixona e com quem acaba se casando:
os filhos: OLAVO (Marcelo Picchi), o mais velho. Engenheiro medíocre profissionalmente, não tem a criatividade e o arrojo que o pai deseja. Puxa-saco, esforça-se para agradar o pai, mas é tratado com desprezo,
CLÁUDIO (Marcos Paulo), rapaz inquieto e contestador, luta contra a austeridade do pai, com quem vive batendo de frente. Formado em Engenharia, não deseja seguir a carreira, contrariando o pai,
e BIA (Malu Mader), a caçula e sua preferida, apesar dos dois viverem em conflito por causa dos gênios difíceis. Estudante de Comunicação, é uma garota anticonvencional e de ideias progressistas. Como Cláudio, não aceita o autoritarismo do pai, enxergando-o como um homem retrógrado
a nora MARGARIDA (Lília Cabral), mulher de Olavo. Interesseira, assim como o marido, vive tentando agradar Alfredo. Em vão, já que é vista como uma figura deslumbrada e risível
as netas, filhas de Olavo e Margarida: ISABEL (Giovanna Pieck), uma peste que apronta todas, e MARGARETH (Daphné Bastos), a caçulinha
os empregados: ODETE (Zeni Pereira), cozinheira, trabalha na casa desde que os seus filhos eram pequenos. Mulher simplória, vive com medo de perder o emprego,
e VANDERLEI (Cosme dos Santos), copeiro, filho de Odete. Diferente da mãe, contesta o autoritarismo do patrão.

– núcleo de RAUL MONTEIRO (Flávio Galvão), homem charmoso, envolvente e misterioso. O suposto DIABO com quem Eloá faz um pacto para ascender profissionalmente. Ao longo da trama, descobre-se que Raul e o pacto fazem parte de um plano de vingança de Tereza para destruir o casamento de Eloá e Osmar. Tereza amou Osmar no passado, mas ele preferiu se casar com Eloá. Raul é pago para representar os interesses de Tereza e de outras pessoas:
NÁDIA (Tânia Scher), viúva de um sócio de Alfredo. Ela acredita que o empresário se apossou indevidamente de bens do falecido marido, que estão registrados em um testamento guardado a sete chaves em sua mansão
ROGÉRIO CERQUEIRA (Odilon Wagner), amante e cúmplice de Nádia. Alto executivo da empresa de Alfredo, promove a ascensão de Eloá a pedido de Tereza, enquanto esta tem a incumbência de resgatar na mansão de Alfredo o testamento que favorece Nádia.

– núcleo de LÚCIA GOUVEIA (Joana Fomm), socialite falida que faz tudo para manter a pose, aparentando o que não tem e mendigando festas de grã-finos e notas em colunas sociais como forma de manter o prestígio. Despejada da cobertura onde vivia, vai morar de favor no apartamento de uma amiga. Tenta em vão conseguir um marido rico para a filha, a fim de livrar a situação financeira da penúria. Induz a filha a assediar Cláudio, que considera um bom partido. Como não vê resultado, vai ela mesma à luta, investindo no pai dele, Alfredo. Esconde de todos o seu passado e a origem humilde. Fora apaixonada por Amauri, mas preferiu se casar com um homem rico que lhe deu estabilidade financeira a viver com um homem em dívida com a Justiça. Sempre escondeu que Amauri é pai de sua filha:
a filha ALICE (Luiza Tomé), tímida e insegura, dominada pela mãe, que quer a todo custo vê-la casada com um homem rico. Lúcia a empurra para Cláudio, fazendo-a pensar que o rapaz a ama, o que não é verdade
a amiga CRISTINA WERNECK (Mila Moreira), que a ajuda quando ela é despejada de seu apartamento, levando-a para morar consigo. Decoradora com prestígio na sociedade carioca, mulher independente, moderna, generosa, com uma situação financeira estável.

– núcleo de SÔNIA NASCIMENTO RANGEL (Zezé Motta), arquiteta que não encontrou espaço no mercado de trabalho e foi obrigada a abrir uma firma de paisagismo. Apaixona-se por Cláudio, mas o casal vive um romance conturbado pelo preconceito racial, principalmente do pai dele, Alfredo, que não aceita a relação por ela ser negra:
os pais: SEU RANGEL (Waldir Onofre, participação), marceneiro, tem uma oficina em casa. Morre no início,
e JUREMA (Ruth de Souza), dona de casa, mulher afetuosa com as filhas
a irmã pequena LAURINHA (Eliane Neves)
o namorado de Jurema, FLORIANO (Clementino Kelé), com quem se casa
o noivo no início IVAN (Sérgio Maia), jornalista.

– núcleo de ZORAIDE DA SILVA CORDOVIL (Renata Fronzi), mulher extrovertida, sempre bem humorada. Foi vedete do teatro de revista, nos anos 1950, quando adotava o nome artístico de ZORA ZANINI. Vizinha de Osmar e Eloá, aluga quartos em seu casarão. É lá onde mora Amauri:
a irmã mais velha GUIOMAR (Eloísa Mafalda), viúva, morava com o filho único em Blumenau, Santa Catarina, até que, depois de uma enchente, resolveu se mudar para o casarão da irmã, no Rio. Mulher simplória, é uma mãe possessiva que vive para o filho e sonha com um bom futuro para ele
o sobrinho RAFAEL MOTA (Lauro Corona), filho de Guiomar, bom rapaz, estudioso e trabalhador, mas sufocado pela mãe. Interessa-se pelas Artes, mas Guiomar insiste que ele não terá futuro se for “artista”. Introjeta então as prioridades da mãe: salário fixo e carteira assinada. Namora uma vizinha do sul, mas apaixona-se por Bia quando a conhece. Como Bia é namorada de seu melhor amigo, o casal vive um amor com culpa
a namorada de Rafael, ÂNGELA (Andréa Beltrão), moça doce, mas passiva, sem grande força de vontade. Deixa Blumenau e parte para o Rio com Guiomar e Rafael após perder o pai, vítima da enchente. Concentra sua energia na relação com Rafael, que, claramente, não a ama
os hóspedes em seu casarão: JALUSA (Rosane Gofman), telefonista na Fraga Dantas, amiga de Eloá. Moça mística, exotérica, supersticiosa e fatalista,
ALÍPIO (Massaroca), ex-palhaço de circo, hoje aposentado,
PALMIRA (Maria Helena Pader) e seu filho RICARDO (Alexandre Garcia).

– núcleo de ZECA MACIEL (Caíque Ferreira), rapaz rico e charmoso, disputado pelas moças por ser um bom partido. Alvo do amor platônico de Alice, a trata como uma amiga. Dono da agência de publicidade onde Rafael vai trabalhar. Os dois tornam-se grandes amigos, mas acabam apaixonados pela mesma mulher, Bia. Rafael conhece Bia quando Zeca já a namora. Bia fica balançada por Rafael, mas os dois têm medo de magoar Zeca:
a amiga e secretária VIRGÍNIA (Duse Nacaratti), por quem tem um carinho filial. Mulher engraçada e enxerida, que vive dando pitacos em sua vida particular
o amigo HORÁCIO (Nilson Aciolly).

Momento brilhante

“Mais um brilhante momento para Gilberto Braga, mágico em segurar o telespectador com suas fantasias. (…) Gilberto sabe como tecer com maestria os mistérios de uma boa novela sem nunca deixar cair o interesse por essa ou outra trama. (…) Tudo muito sedutor, deliciosamente novelistico.” (“Memória da Telenovela Brasileira”, Ismael Fernandes)

Gilberto Braga cativou o público com tramas bem amarradas e personagens femininas marcantes:
– a mulher que perde o homem amado e planeja vingança para destruí-lo: Tereza (Glória Menezes);
– a mulher que faz um pacto com o diabo para ascender profissionalmente: Eloá (Débora Duarte);
– a mulher vítima de racismo, cujo sangue salva a vida do homem que um dia a subjugara e a fizera sofrer: Sônia (Zezé Motta);
– e a mulher da sociedade vivendo em conflito com o passado glorioso e o presente sem dinheiro, à procura de um casamente de interesse: Lúcia (Joana Fomm).

Melhor novela

Em 2008, Gilberto Braga revelou ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia” (do Projeto Memória Globo) a sua predileção por Corpo a Corpo:
“Sempre pensei ‘Por que falam de Dancin’ Days e Água Viva quando citam meus sucessos e não falam de Corpo a Corpo?’ Era uma novela extremamente bem-feita, com uma trama bem armada, baseada em histórias de ascensão social e vingança (…) Até hoje é muito elogiada por escritores [de novelas].”

Em 2009, ao livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo” (de André Bernardo e Cíntia Lopes), o autor confirmou que esta era a sua melhor novela, porém, não aprovou o título nem a escalação de Débora Duarte, como a protagonista:
“Na minha opinião, Corpo a Corpo é minha melhor novela, mas não é tão lembrada. O título, aliás, é muito ruim. Débora Duarte é extraordinária, mas, convenhamos, não é o primeiro nome de uma novela.”

O título provisório da novela era Olho por Olho, usado alguns anos depois para uma novela da TV Manchete. (jornal Última Hora de 10/09/1984, colaboração de Mauricio Gyboski)

Com o sucesso de Corpo a Corpo, o fabricante de cosméticos Davene lançou um creme hidratante com o nome da novela.

Racismo

Gilberto Braga criou em Corpo a Corpo uma das primeiras representações em novela – se não a primeira – de uma família de negros bem colocada socialmente, em uma época em que atores negros muito raramente fugiam do estereótipo do escravo, do serviçal ou do bandido. A próxima novela com uma família negra de classe média-alta só veio dez anos depois: A Próxima Vítima, de Silvio de Abreu, em 1995.

O racismo foi pertinentemente abordado da trama. Cláudio (Marcos Paulo) era um rapaz muito rico, de temperamento rebelde, que vivia batendo de frente com a intransigência do pai, Alfredo Fraga Dantas (Hugo Carvana), um homem conservador, arrogante, reacionário e preconceituoso. Cláudio se apaixona por Sônia (Zezé Motta), moça negra de família de classe média, arquiteta paisagista, culta e esclarecida. O pai não aceitava o namoro do filho com uma negra. Em um entrecho folhetinesco digno de O Direito de Nascer, Sônia, após sofrer todo o preconceito do velho, salva sua vida com uma transfusão de sangue. Agora o rico “de sangue azul” tinha sangue negro correndo em suas veias! Quem resiste a um gancho desse?

Porém, o entrecho real chocou mais que o ficcional. Uma pesquisa para aferir a aderência do público sobre o casal Sônia e Cláudio surpreendeu todos os profissionais envolvidos. Zezé Motta narrou o ocorrido no documentário A Negação do Brasil, de Joel Zito Araújo (2000):
“As reações foram violentas (…) Um homem disse que se fosse ator e estivesse precisando de dinheiro e a televisão obrigasse a beijar uma negra feia e horrorosa ‘como aquela’, chegaria em casa todos os dias e desinfetaria a boca com água sanitária. (…) Teve uma empregada doméstica que disse que toda vez que o casal se beijava, ela trocava de canal porque não acreditava nesse amor. (…) Outro disse que não acreditava que Marcos Paulo estivesse tão necessitado de dinheiro para passar por essa humilhação.”

Zezé Motta também afirmou que Gilberto Braga escreveu uma cena baseada em um fato presenciado por ele: Sônia estava em um jantar na mansão dos Fraga Dantas e a empregada, negra, se negou a servi-la – por Sônia ser negra.

Elenco

Destaque para o ator Flávio Galvão, personificando o próprio Diabo.

Débora Duarte estava no auge de sua maturidade profissional. A atriz vinha do sucesso de duas minisséries, Padre Cícero e Anarquistas, Graças a Deus, exibidas meses antes da estreia da novela.
Por sua atuação em Corpo a Corpo e nas minisséries, Débora foi eleita pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) a melhor atriz de 1984 (juntamente com Geórgia Gomide e Marieta Severo, por Vereda Tropical, Mírian Pires, por Meus Filhos, Minha Vida, Lucinha Lins, pela minissérie Rabo de Saia, e Nathalia Timberg, pela minissérie Santa Marta Fabril).

A exemplo de Yolanda Pratini em Dancin’ Days, Joana Fomm mais uma vez brilhou com uma vilã arrivista: Lúcia Gouveia. A atriz lembrou que, na época da novela, um garçom negou-se a atendê-la.
“Disse que não ia me servir porque eu não prestava, não valia nada”, contou ela. “Tentei me defender dizendo que eu era Joana Fomm, a atriz, uma pessoa boa. Ele me olhou bem nos olhos e disse: ‘A senhora pode ser essa tal de Joana, mas que é bem parecida com a moça da novela, ah, isso é’. Virou as costas e foi embora!”

Em uma época em que essa já não era mais uma prática comum, a atriz Eloísa Mafalda – Dona Guiomar na novela – emendou dois trabalhos: após Corpo a Corpo, foi escalada para a produção substituta no horário, Roque Santeiro, em que viveu a beata Pombinha Abelha.

Também Andréa Beltrão emendou trabalhos. Enquanto ainda gravava Corpo a Corpo, a atriz foi escalada e começou a gravar a série Armação Ilimitada. Assim pôde ser vista nas duas produções, já que a Armação estreou quando faltava um mês para o término da novela.
Andréa Beltrão mudou o cabelo para viver a jornalista Zelda Scott na série, obrigando sua personagem em Corpo a Corpo, Ângela, a passar por uma transformação no visual.

Primeira novela da atriz Luiza Tomé e do ator José Dumont. Estreia na Globo de Lília Cabral e Selton Mello, que vinham das produções da TV Bandeirantes, de São Paulo. Selton completou 12 anos no decorrer da novela.

Primeira novela da longa parceria do novelista Gilberto Braga com o diretor geral Denis Carvalho. Também a primeira novela do autor com a atriz Malu Mader, para quem ele criou personagens de destaque em produções seguintes (Anos Dourados, O Dono do Mundo, Anos Rebeldes, Labirinto, Força de um Desejo e Celebridade).

De acordo com o jornal Última Hora de 10/09/1984, alguns dos primeiros nomes escalados não vingaram: Renée de Vielmond seria Eloá (subsitituída por Débora Duarte), Glória Menezes seria Lúcia Gouveia (papel que ficou com Joana Fomm, enquanto Glória foi realocada para outra personagem, Tereza) e Débora Bloch seria Bia (que foi para Malu Mader). (colaboração de Mauricio Gyboski)

Enchente

O primeiro capítulo simulou uma enchente no sul do país. No ano anterior (1983), a cidade de Blumenau (SC) havia sido devastada com uma das piores inundações de sua história. Gilberto Braga incluiu esse fato em sua trama.
Os blumenauenses Guiomar (Eloísa Mafalda), o filho Rafael (Lauro Corona) e a namorada dele, Ângela (Andréa Beltrão) se mudam para o Rio de Janeiro depois de perder suas casas na enchente. O pai de Ângela, Machado (Turíbio Ruiz), havia morrido no desastre.

A equipe de produção teve um cuidadoso trabalho para simular a inundação. A gravação foi feita em um sítio em Guaratiba (RJ) e levou dois dias para ser concluída. No ar, a cena teve apenas 20 segundos de duração. Para representar o efeito de uma inundação, foi escavado um buraco de 9,5m de comprimento por 6m de largura e 1,6m de profundidade, com o fundo e as laterais vedados com plástico. Para simular a forte chuva, foram necessários vinte carros-pipa. (Site Memória Globo)

Mistérios

Corpo a Corpo aguçou a curiosidade do publico acerca do mistério que envolvia o Diabo (Flávio Galvão). Em troca de uma promissora carreira profissional na empresa Fraga Dantas, Eloá (Débora Duarte) aceita fazer um pacto com o capeta. No meio da novela, descobria-se que tudo não passava de uma farsa arquitetada por um grupo de pessoas que estavam usando Eloá para se apoderar da empresa onde ela era executiva.

Alfredo Fraga Dantas (Hugo Carvana) havia fundado sua firma com um sócio, que veio a falecer e lhe deixou a sua parte em testamento. A viúva, Nádia (Tânia Scher), alia-se a Rogério (Odilon Wagner), alto funcionário da Fraga Dantas, para conseguir esse testamento. Por meio de Raul (Flávio Galvão), encarnando o próprio Diabo, é fácil para Rogério promover a ascensão de Eloá. Enquanto isso, a enfermeira Tereza (Glória Menezes) se infiltra na mansão Fraga Dantas com a incumbência de seduzir Alfredo, casar-se com ele e meter as mãos no testamento, guardado em um cofre. Em troca, Tereza quer o fim do casamento de Eloá e Osmar (Antônio Fagundes), sua antiga paixão, como uma vingança pessoal contra ele, que a abandonara grávida no passado.

Descoberta a farsa, todos os envolvidos são condenados, com exceção de Nádia, que morre atropelada antes do julgamento, e de Eloá, que era tão vítima quanto Alfredo. Tereza vai presa e se regenera na cadeia. Rogério morre ao fugir da polícia. Raul também tenta uma fuga e (aparentemente) morre, quase aos olhos de Tereza.

Porém, para surpresa do público, o Diabo reaparece, agora para a atormentada Tereza, que já cumpriu sua pena. Ele a convence que todas aquelas mortes são obra sua, e que ela poderá vir a reconquistar o amor de Osmar. Entretanto, para isso, terá que matar Alfredo. É quando a novela inicia um novo mistério. Ao final, a elucidação do caso: Raul não morrera. Ele aliou-se a Amauri (Stênio Garcia), que queria a morte de Alfredo para finalmente ficar com o amor de sua vida, Lúcia (Joana Fomm), a nova mulher do empresário.

Trilha sonora

Apesar de não constar nos LPs da novela, a canção “Coração de Estudante”, sucesso da época na voz de Milton Nascimento, foi fartamente executada em Corpo a Corpo (para as cenas do casal Sônia e Cláudio). Porém, apenas em sua versão instrumental, em uma gravação de Wagner Tiso.

Outras músicas muito marcantes na novela foram “Nada Mais” (versão da internacional “Lately”), gravada por Gal Costa (tema de Tereza), e a internacional “Missing You”, na voz de Diana Ross (tema de Lúcia e Amauri) – esta, curiosamente, tocou desde o início da novela, quando a prática na época era executar as músicas estrangeiras a partir da metade da trama, quando o disco internacional era lançado comercialmente.

Corpo a Corpo foi uma das primeiras novelas em que um efeito visual e um efeito sonoro anunciavam o fim do capítulo: a última imagem “congelava” em preto e branco com um som impactante.

Reprise

Corpo a Corpo foi reapresentada no Viva (canal de TV por assinatura pertencente ao Grupo Globo), a partir de 24/06/2024, às 14h40.

Trilha sonora nacional

01. UM GRANDE AMOR – Fagner
02. CORRA E OLHE O CÉU / NOTÍCIA – Beth Carvalho
03. NADA MAIS (LATELY) – Gal Costa (tema de Tereza)
04. ONDE É QUE A GENTE VAI? – Dalto
05. PARA LENNON E MCCARTNEY – Elis Regina
06. PAPEL MACHÊ – João Bosco (tema de Osmar)
07. TÃO BEATA, TÃO À TOA – Marina (tema de abertura)
08. PRA EU PARAR DE ME DOER – Maria Bethânia (tema de Eloá)
09. SORVETE – Caetano Veloso
10. UM DESEJO SÓ NÃO BASTA – Simone
11. BABY SUPORTE – Barão Vermelho
12. FÉRIAS DE VERÃO – Sandra Sá
13. A MULHER INVISÍVEL – Ritchie
14. DÊ UM ROLÊ – Zizi Possi

Sonoplastia: Aroldo Barros
Direção de sonoplastia: Antônio Faya
Direção de produção: Guto Graça Mello
Supervisão de repertório: Francisco Santos Jr.

Ainda
15. CORAÇÃO DE ESTUDANTE (instrumental) – Wagner Tiso (tema de Cláudio e Sônia)

Trilha sonora internacional

01. TOO LATE FOR GOODBYES – Julian Lennon
02. STILL LOVING YOU – Scorpions
03. BODY ROCK – Maria Vidal
04. WHAT ABOUT ME? – Kenny Rogers, Kim Carnes and James Ingram (tema de Bia e Rafael)
05. SEX APPEAL – Sophie St. Laurent
06. AUTUMN – Season of Love (tema romântico geral)
07. TASTE SO GOOD – File 13
08. PURPLE RAIN – Prince & The Revolution
09. MISSING YOU – Diana Ross (tema de Lúcia e Amauri)
10. I FEEL FOR YOU – Chaka Khan
11. EDGE OF A DREAM – Joe Cocker (tema de Cláudio e Sônia)
12. MAKE NO MISTAKE, HE’S MINE – Barbra Streisand and Kim Carnes (tema de Eloá e Osmar)
13. BONITA – Maysa (tema de Tereza)
14. AGADOO – Black Lace

Supervisão: Sérgio Motta

Tema de abertura: TÃO BEATA, TÃO À TOA – Marina

E no calor dessa magia
Eu sou fera
Fico bela
Eu me escorrego no seu corpo
Eu vendo a alma ao diabo
Só pra sentir o seu gosto
É que eu mordo
Mordo e sopro
É que eu monto e desmonto
Tão beata, tão à toa

Espelho, espelho meu
Existe alguém mais louca do que eu?
Espelho, espelho meu
Existe alguém mais louca…

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