Sinopse

Alice, uma estudante idealista que se recusa a agir contra os seus princípios, testemunha um atropelamento causado por Raul Pelegrini, um empresário rico e inescrupuloso. A jovem é pressionada a testemunhar a favor dele, mas, a partir do momento em que recusa as suas tentativas de suborno e conta a verdade, está estabelecido o principal conflito da história.

A ardilosa Lídia Laport, mãe de Rodrigo, o namorado de Alice, vive de aparências e abomina a pobreza. Ela consegue aproximar-se de Teresa, esposa de Raul, com o puro intuito de acabar com o seu casamento de 39 anos e tornar-se a nova senhora Pelegrini. Arma para o empresário flagrar a esposa em adultério enquanto o seduz. Acabam casados.

Enquanto isso, Pedro regressa ao Brasil, depois de uma longa temporada como imigrante nos Estados Unidos, por acreditar que seu país tem solução. Chegando aqui, encontra a família vivendo no morro. Com o apoio de Alice, Pedro lidera uma revolta contra Raul Pelegrini, que ordenara a desocupação do terreno na comunidade onde sua família morava.

Pedro será a causa dos dilemas de Lídia, sua antiga paixão. Ela ficará balançada entre uma fútil vida de conforto material com Raul e um grande amor sem segurança financeira ao lado de Pedro. Enquanto isso, Raul se encanta pela bela, ingênua e autêntica Cilene, recém-chegada do interior para tentar a sorte na cidade grande.

Globo – 20h
de 18 de julho de 1994
a 10 de março de 1995
203 capítulos

novela de Gilberto Braga
escrita por Gilberto Braga, Leonor Bassères, Sérgio Marques, Alcides Nogueira, Ângela Carneiro e Maria Helena Nascimento
direção de Denis Carvalho, Roberto Naar, Ary Coslov e Alexandre Avancini
direção geral de Denis Carvalho

Novela anterior no horário
Fera Ferida

Novela posterior
A Próxima Vítima

TARCÍSIO MEIRA – Raul Ramos Pelegrini
VERA FISCHER – Lídia Thompson Laport
JOSÉ MAYER – Pedro Fonseca
CLÁUDIA ABREU – Alice Proença
FÁBIO ASSUNÇÃO – Rodrigo Thompson Laport
MARIETA SEVERO – Loreta Ramos Pelegrini Vilela
EVA WILMA – Teresa Godoy Ramos Pelegrini
CARLOS ZARA – Evandro Aboim
RENATA SORRAH – Natália Proença
CARLOS VEREZA – Max Laport
RENÉE DE VIELMOND – Marininha (Marina Aboim)
LUIZA TOMÉ – Isabel
NUNO LEAL MAIA – Osmar
PETRÔNIO GONTIJO – Murilo Henrique Vilela
LÍLIA CABRAL – Simone
ISADORA RIBEIRO – Cilene
DEBORAH EVELYN – Bárbara
DÉBORA DUARTE – Carmita
FELIPE CAMARGO – Inácio Fonseca
RODOLFO BOTTINO – Heitor
PEDRO CARDOSO – Albano
ALÉXIA DESCHAMPS – Alexandra
FERNANDO EIRAS – Dirceu
ANDRÉ PIMENTEL – Joel Fonseca
IVAN CÂNDIDO – Deodato Fonseca
ROSITA TOMAZ LOPES – Úrsula Ramos Pelegrini
ODETE LARA – Walkíria Mayrink
PAULA LAVIGNE – Flávia Aboim
CHICA XAVIER – Zilá
CLEMENTINO KELÉ – Rangel
ZENI PEREIRA – Isaura
ALEXANDRE MORENNO – Kennedy
STEPAN NERCESSIAN – Devair
YAÇANÃ MARTINS – Gracinda
JARBAS TOLEDO – Breno
PAULO REIS – Ciro
NILDO PARENTE – Fausto
CARLOS KROEBER – Cristiano
EMÍLIO DE MELLO – Pastor
ISABEL FILLARDIS – Yone
RODRIGO SANTORO – Nando
CÁSSIA LINHARES – Luciana
FLÁVIA ALESSANDRA – Cláudia
DARTAGNAN JÚNIOR – Aderbal
FÁTIMA FREIRE – Iracema
JANAINA DINIZ – Rita
LU MENDONÇA – Lurdes
MARIA RITA FREIRE – Vanda

o menino EDUARDO CALDAS – Gabriel

e
ANA PAULA ABRANCHES
ANDRÉA CARVANA
ANDRÉA LINS – Marlene (secretária no Grupo Ramos Pelegrini)
ANTÔNIO GONZALEZ – Márcio (policial de quem Loreta se aproxima para colher informações para Raul)
ANTÔNIO GRASSI – Carlos (motorista em Nova York, amigo de Pedro)
ARACY BALABANIAN – Rosário (mãe reacionária de Ronaldo, perturba Marininha no colégio)
ARY COSLOV – diretor da novela cuja gravação foi interrompida por Cilene
BETE MENDES – Zuleica (guia turística em Nova York, amiga de Pedro)
BRUNO GARCIA – José Luiz (personagem da novela cuja gravação foi interrompida por Cilene)
CARLA TAUSZ
CAROLINA FERRAZ – Beatriz Aboim (filha de Marininha, ex-namorada de Rodrigo, viaja para Roma)
CASTRO GONZAGA – Antenor (chamado por Evandro para consertar o elevador do hotel)
CLÁUDIA RANGEL – Sheila (secretária no Grupo Ramos Pelegrini)
CLÁUDIO CORRÊA E CASTRO – Valdomiro Bezerra de Quental (velho amigo de Pedro)
CLÁUDIO TOVAR – assedia Lídia em uma festa
CONSTÂNCIA LAVIOLA – Neide (amiga de Ester em Nova York)
DANIEL AUGUSTO – Marcelo (morador de Nova York)
DANIELLE WINITS – atriz da novela cuja gravação foi interrompida por Cilene
EDGAR MOURA BRASIL – escritor no lançamento de seu livro
EDUARDO CONDE – Lauro (pai de Cilene)
EDUARDO TORNAGHI – primeiro delegado que investiga o acidente envolvendo o carro de Raul, acaba substituído
FÁBIO PILLAR – Etevaldo (segurança que ajudou Lídia a roubar as joias de Raul)
FÁBIO VILLA VERDE – Meireles (repórter de jornal que tenta “vender” Lídia como autora do incêndio no hotel)
FERNANDA AZEVEDO
FLÁVIA BONATO – Daniela (amiga de colégio de Alice, Nando e Luciana)
FÚLVIO STEFANINI – Rafael Novaes (professor que tem um caso com Teresa, descoberto por Raul)
IVAN MESQUITA – Aristarco (chefe de Rangel e Inácio na oficina mecânica)
JANE BEZERRA – Carlota
JONAS BLOCH – delegado que prende Rodrigo, acusado do atentado contra Raul
JOSÉ AUGUSTO BRANCO – Ribeiro (proprietário do apartamento de Max)
JOSÉ LEWGOY – Ronaldo Pires (traficante de peças de arte)
JÚLIO BRAGA – médico que trata de Gustavo após o acidente
KADU MOLITERNO – Gustavo Godoy Ramos Pelegrini (filho de Raul e Teresa)
KARLA MUGA – amiga de colégio de Alice, Nando e Luciana
KARLA NOGUEIRA
LOU RHEIMER
LUCIANO VIANNA – Ronaldo (amigo de colégio de Alice, Nando e Luciana)
LUCY MAFRA – funcionária da faculdade onde estudam Alice, Nando e Luciana
LUIGI BARICELLI – Dudu (rapaz envolvido em um golpe de Max)
LUÍS SÉRGIO LIMA E SILVA – Jader da Silva Miranda (tabelião chamado por Gustavo no hospital)
MALU GALLI – Nanci (produtora de TV amiga de Cilene que a leva para assistir à gravação de uma novela)
MARCELO PICCHI – Floriano Siqueira (político de Campo Largo que Raul financia para obter vantagens no processo do incêndio)
MARCELO SABACK – Romeu Junqueira (matador contratado por Loreta para matar Raul)
MÁRIO LAGO – Dr. Marco Antônio (advogado)
MÁRIO ROBERTO – William (dono da franquia que Pedro assina para um negócio)
MAURO MENDONÇA – Olavo Tavares (dono do jornal Correio Carioca, onde Heitor trabalha)
NELSON DANTAS – Brito (esposo de uma das vítimas do incêndio do hotel em Campo Largo)
PATRÍCIA NOVAES – Marilu (contratada por Lídia para seduzir Raul, no início)
PATRÍCIA PILLAR – Ester Cavalcanti Fonseca (mulher de Pedro, morre no início)
PAULA LEAL – Jurací (arrumadeira na casa de Tereza)
PAULO RESENDE
RAFAEL PONZI – Queiroz (homem cujo carro é abalroado pelo de Raul, no início)
RAUL LABANCA – segurança de Raul
RENATA CASTRO BARBOSA – Fernanda (personagem da novela cuja gravação foi interrompida por Cilene)
ROBERTO LOPES – Célio (cobrador de dívidas de jogo de Max)
RONALDO TORTELLI – funcionário com quem Loreta reclama de sujeira em um salão de festas
TEKA MORAES
TONICO PEREIRA – segundo delegado que investiga o acidente envolvendo o carro de Raul
TONY TORNADO – tratorista que tenta executar a ordem de Raul de derrubar casas em construção
VICENTE BARCELLOS – Cláudio (motorista que Raul demite no primeiro capítulo)
YONÁ MAGALHÃES – juíza no processo que prova o parentesco de Alice e Raul, neta e avô

– núcleo de RAUL RAMOS PELEGRINI (Tarcísio Meira), homem rico, poderoso, arrogante e prepotente. Acha que pode resolver todos os problemas subornando as pessoas. Persegue um grupo de desabrigados, não permitindo que eles construam casas populares em um de seus terrenos:
a mulher TEREZA (Eva Wilma), elegante, mas simples. Um tanto ingênua, é infeliz no casamento e no rumo que sua vida tomou. Fecha os olhos para as traições do marido. Os dois se separam quando ela é vítima de uma armação
o filho GUSTAVO (Kadu Moliterno, participação), que trabalha com o pai. Tem uma filha que desconhece, fruto de um antigo caso. Morre em um acidente, no início
a irmã ÚRSULA (Rosita Tomaz Lopes), mulher bondosa, mora com o irmão
a sobrinha LORETA (Marieta Severo), filha de Úrsula. Mulher perdulária, esnobe e interesseira que vive do dinheiro do tio
o sobrinho-neto, MURILO HENRIQUE (Petrônio Gontijo), filho de Loreta, neto de Úrsula. Dominado pela mãe, trabalha com o tio, de quem é puxa-saco
a sobrinha de Tereza, BÁRBARA (Deborah Evelyn), jovem insegura. Mora em Portugal, mas retorna ao Brasil
os empregados: ISAURA (Zeni Pereira), cozinheira; KENNEDY (Alexandre Morenno), neto de Isaura, jardineiro;
VANDA (Maria Rita Freire) e JURACI (Paula Leal), arrumadeiras;
BRENO (Jarbas Toledo), copeiro; e ADERBAL (Dartagnan Jr.), segurança.

– núcleo de LÍDIA LAPORT (Vera Fischer), ex-modelo que tenta ascender socialmente. Dona de um antiquário, circula na alta roda, mas vive de aparências. Elabora um plano diabólico para destruir o casamento de Raul e Tereza e tomar o lugar dela. Quando consegue, sente sua vida dar uma reviravolta ao reencontrar um antigo amor da juventude. Ficará entre o desejo de continuar a ser rica e o de realizar seu antigo amor:
o filho RODRIGO (Fábio Assunção), jovem arquiteto que faz estágio na empresa de Raul, mas não se sente realizado. Vive em conflito com a mãe por ela usar de expedientes pouco nobres para ascender socialmente. Alvo do amor desmedido de Bárbara
o ex-marido MAX LAPORT (Carlos Vereza), um sonhador, viciado em jogo, incapaz de gerenciar o lado prático da vida
a amiga SIMONE (Lília Cabral), cúmplice em suas armações. Ex-mulher de Gustavo, vive tentando extorquir-lhe dinheiro.

– núcleo de PEDRO FONSECA (José Mayer), homem íntegro e extremamente patriota. De origem humilde, foi ilegalmente viver nos Estados Unidos, onde estabeleceu-se como motorista. Ao retornar ao Brasil, torna-se líder na comunidade onde mora seu pai depois que acontece um desmoronamento. Reencontrará Lídia, seu grande amor da juventude:
a mulher ESTER (Patrícia Pillar, participação), resiste à ideia de retornar ao Brasil, mas cede aos apelos do marido. Morre no início – no mesmo acidente que vitimou Gustavo – ao lutar pelo direito dos desabrigados de construírem casas populares
o filho pequeno GABRIEL (Eduardo Caldas)
o pai DEODATO (Ivan Cândido), motorista de ônibus
os irmãos: INÁCIO (Felipe Camargo), mecânico de automóveis, de caráter duvidoso, e JOEL (André Pimentel), motorista de táxi, bom-moço.

– núcleo de ALICE PROENÇA (Cláudia Abreu), jovem estudante idealista, íntegra, justa e caridosa. Ao testemunhar um acidente, será a principal adversária do poderoso Raul Pelegrini, sem saber que este é na verdade seu avô. Conhece Rodrigo, por quem se apaixona:
a mãe NATÁLIA (Renata Sorrah), de quem é a melhor amiga, com quem tem uma relação franca e aberta. No passado, tivera um caso com Gustavo, cuja filha ele desconhece
a melhor amiga de Natália, CARMITA (Débora Duarte), sua vizinha
o irmão de Carmita, DIRCEU (Fernando Eiras), professor universitário
o advogado OSMAR (Nuno Leal Maia), que se apaixona por Natália. Ajuda Alice a comprovar que é filha de Gustavo e, portanto, tem direito à herança de Raul Pelegrini
os amigos de faculdade: NANDO (Rodrigo Santoro), seu namorado no início, LUCIANA (Cássia Linhares), que passa a namorar Nando quando ele e Alice terminam, RONALDO (Luciano Vianna) e DANIELA (Flávia Bonato).

– núcleo de EVANDRO ABOIM (Carlos Zara), dono do Hotel Garnier, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro. Amigo de Raul, discorda de seu estilo de administrar seus negócios. Tem um amor secreto por Tereza, que consegue enfim realizar quando ela se separa de Raul:
a filha MARININHA (Renée de Vielmond), separada, dirige a faculdade onde estuda Alice, com atitudes abertas e inovadoras. Amiga de Tereza, envolve-se com Max
as netas, filhas de Marininha: BEATRIZ (Carolina Ferraz, participação), que sofre ao romper o namoro com Rodrigo e muda-se para Roma,
e FLÁVIA (Paula Lavigne), que tem inveja da irmã por achar que ela é a preferida da família
a amiga WALKÍRIA (Odete Lara), que o ajuda a administrar seu hotel.

– núcleo de ALBANO (Pedro Cardoso), assessor de Raul, para quem é tímido e subserviente, mas na verdade é irônico e tem ótimo senso de humor. Tem uma paixão platônica por Alice, a quem ajudará quando ela ficar grávida, casando-se com ela e registrando a criança:
os amigos com quem divide apartamento: HEITOR (Rodolfo Bottino) jornalista que combate Raul Pelegrini,
ALEXANDRA (Aléxia Deschamps), estilista na loja de Loreta, vai montar sua própria loja ao ser enganada por ela,
e CILENE (Isadora Ribeiro), ingênua vendedora do interior que vem morar no Rio de Janeiro. Disputada por Inácio e Heitor, acaba casando-se com Raul Pelegrini
a amiga de Alexandra, YONE (Isabel Fillardis), secretária de Loreta.

– núcleo dos moradores da comunidade, onde moram Deodato, Inácio, Joel, Isaura, Kennedy e Aderbal:
ZILÁ (Chica Xavier), faxineira, prima de Isaura e madrinha de Kennedy, e seu marido RANGEL (Clementino Kelé), mecânico que trabalha com Inácio
DEVAIR (Stepan Nercessian), trabalha com Deodato, e sua irmã GRACINDA (Yaçanã Martins), faxineira como Zilá
LURDES (Lu Mendonça) e sua filha RITA (Janaína Diniz)
IRACEMA (Fátima Freire), mulher de Aderbal.

– núcleo do Grupo Ramos Pelegrini, onde trabalham Gustavo, Murilo e Albano:
os advogados FAUSTO (Nildo Parente), CRISTIANO (Carlos Kroeber) e PASTOR (Emílio de Mello), este amigo de Simone
o contador CIRO (Paulo Reis), que torna-se amante e informante de Loreta
as secretárias SHEILA (Cláudia Rangel) e MARLENE (Andréa Lins).

demais personagens:
RAFAEL NOVAES (Fúlvio Stefanini), professor do curso de História frequentado por Tereza e Lídia, no início. Envolve-se com Tereza por meio de uma armação de Lídia, o que resulta na separação de Tereza e Raul
ISABEL (Luiza Tomé), jornalista que mora na Europa e, ao retornar ao Brasil, envolve-se com Pedro
VALDOMIRO BEZERRA DE QUENTAL (Cláudio Corrêa e Castro), milionário que conhece Pedro quando visita o Rio de Janeiro. Depois que se machuca em um acidente de ônibus, toma cuidados de Pedro e o recompensa
CLÁUDIA (Flávia Alessandra), ex-aluna de Marininha.

Inspirações e abordagens

Acenando com Pátria Minha que vale a pena viver honestamente no Brasil, o autor Gilberto Braga encerrava sua trilogia de novelas em que discutia a ética e moral do brasileiro (as anteriores foram Vale Tudo, em 1988, e O Dono do Mundo, em 1991) – ainda que não assumisse essa proposta ou a fizesse de forma consciente.

A novela trazia um certo tom ufanista, já no título e na abertura. Estreou em um bom momento para os brasileiros, com a economia em reabilitação (com o Plano Real, implantado naquele ano) e a conquista do tetracampeonato pela seleção brasileira de futebol na Copa dos Estados Unidos (no domingo de 17/07/1994, dia anterior ao da estreia da novela). Fera Ferida, a novela antecessora no horário, foi inclusive esticada para que Pátria Minha só estreasse depois do final da Copa. No último capítulo de Fera Ferida, o cinema de Tubiacanga (cenário dessa novela) anunciava a próxima atração: Pátria Minha.

A novela de Gilberto Braga nasceu do poema homônimo de Vinícius de Moraes. O autor explicou ao jornal O Globo (de 17/07/1994) como surgiu a ideia para sua trama:
“Por causa do impeachment [do presidente Collor, pouco mais de um ano antes], sinto no ar uma gana geral de pôr fim à impunidade, aos abusos. O que não sentia, absolutamente, em 1988, quando fizemos Vale Tudo. Começamos a falar de amor à pátria, eu lembrei do poema do Vinícius (…) Li em voz alta e todos acabamos achando que era um bom tema.“
O belo poema foi declamado parcialmente no capítulo de estreia, em off, na voz do ator José Mayer seguida pelo áudio de Vinícius de Moraes: “(…) Não te direi o nome, pátria minha / Teu nome é pátria amada, é patriazinha / Não rima com mãe gentil (…)”.

No cenário urbano carioca foram discutidas temáticas como: os brasileiros que trabalham nos Estados Unidos, a moradia, o racismo e o adultério feminino. Por meio da personagem Alice (Cláudia Abreu) foram mostrados tabus típicos da juventude da época, como a virgindade e a primeira experiência sexual, o fato de transar com o namorado na casa dos pais, o uso de preservativos, o diálogo entre pais e filhos, etc.

Substituição de diretor

Um desentendimento entre o autor Gilberto Braga e o primeiro diretor-geral escalado, Luiz Fernando Carvalho, resultou na substituição de Luiz Fernando por Denis Carvalho, costumeiro diretor das novelas de Gilberto. À época, Denis comandava, com Marcos Paulo, a novela anterior no horário, Fera Ferida, por isso não foi o primeiro nome para dirigir Pátria Minha.

Luiz Fernando Carvalho deixou a novela em março de 1994, ainda na fase de pré-produção.

A mídia especulou que Gilberto teria reclamado que o diretor queria sempre “dar a palavra final sobre a novela”. Para o jornal O Globo (de 13/03/1994), Luiz Fernando se defendeu:
“A respeito de ‘dar a palavra final sobre a novela’, jamais tive essa pretensão desumana. (…) Tive alguns encontros com o Gilberto e o que, para resumir, ficou claro entre nós é que as nossas expectativas em relação à próxima novela eram diferentes e eu gostaria de respeitá-las.“

Para assumir Pátria Minha, Denis Carvalho deixou Fera Ferida antes de seu término (aos cuidados de Marcos Paulo) e, assim, emendou duas novelas.

Gravidez de atriz

Antes da estreia, já eram conhecidos dois percalços: a novela passaria uma hora mais tarde devido ao horário eleitoral gratuito cedido ao Tribunal Regional Eleitoral; e a súbita gravidez de Carolina Ferraz impediria que ela fosse o vértice no triângulo amoroso com Alice e Rodrigo (Cláudia Abreu e Fábio Assunção). Os autores resolveram manter a atriz até a barriga começar a aparecer. Sua personagem, Beatriz, foi para Roma e, de Portugal, chegou uma nova personagem, Bárbara (Deborah Evelyn), para fechar o triângulo.

No final da novela foi escrito o regresso de Beatriz, que teria uma participação na ilibação de Rodrigo de tentativa de assassinato. O regresso não se concretizou e a personagem passou a ser uma antiga aluna de Marininha (Renée de Vielmond): Cláudia, vivida por Flávia Alessandra.

Demissão de atores

Em uma briga com seu então marido Felipe Camargo, Vera Fischer quebrou o antebraço esquerdo. Os dois atuavam na novela, ela como Lídia Laport, a protagonista, e ele como Inácio, coadjuvante de outro núcleo. O motivo do acidente doméstico seria ciúmes de Isadora Ribeiro, o par romântico de Felipe na novela. Com Vera afastada, muitas alterações de última hora foram feitas no texto. Lídia, por exemplo, foi colocada às pressas em uma clínica de sonoterapia.

A frente de capítulos (número de capítulos entre o que vai para o ar e o que é gravado) de 8 passou para 2. Simone (Lília Cabral), amiga de Lídia, ganhou mais destaque, servindo de elo entre a protagonista e os outros personagens.

Vera Fischer voltou à novela em novembro de 1994, mas não até ao fim. Os seus constantes atrasos, entre outros motivos, levaram, em janeiro de 1995, à sua demissão, bem como a de Felipe Camargo. Como justificativa para a saída dos personagens da novela, Lídia e Inácio morreram no incêndio em um hotel. Para suprir o par de José Mayer na trama (papel que era de Vera), foi escalada a atriz Luiza Tomé, que viveu uma nova personagem, Isabel.

Polêmica com o Movimento Negro

Na época da primeira saída de Vera Fischer da novela, era debatido o racismo: em uma cena bastante intensa, Raul Pelegrini (Tarcísio Meira) humilhou o submisso jardineiro Kennedy (Alexandre Morenno) com um discurso absolutamente execrável. Embora a intenção de Gilberto Braga fosse denunciar o racismo, iniciou-se uma grande polêmica entre a Globo e o Movimento Negro.

Quatro dias após a cena ter ido ao ar, em uma atitude inédita, o SOS Racismo de São Paulo procurou a Justiça com uma notificação jurídica contra os responsáveis pela novela acusando os autores de terem criado uma cena que feria a autoestima da comunidade negra. O SOS Racismo afirmava que a sua ação não era resultado do discurso do vilão, mas da forma com que a vítima reagiu às agressões, com uma conduta que não refletia o comportamento do negro contemporâneo.

No dia seguinte, Sérgio Marques, um dos roteiristas, deu a primeira resposta oficial, caracterizando a atitude como um atentado explícito à liberdade de expressão. Três dias depois, três novas entidades negras ameaçaram ingressar com uma ação indenizatória por danos morais e materiais contra a Rede Globo.

No dia seguinte, a polêmica foi encerrada quando a Globo e os autores prometeram exibir uma cena como forma de compensação: aconselhando Kennedy, a personagem negra Zilá (Chica Xavier) condenava o racismo.
(documentário “A Negação do Brasil”, de Joel Zito Araújo, 2000)

Desabafo do autor

Além destes, outros fatores, segundo Gilberto Braga, prejudicaram a novela, conforme relatou ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia”, do Projeto Memória Globo:
“Eu não deveria ter abordado o tema principal de Pátria Minha em uma novela, porque era sério demais. As primeiras cenas do José Mayer com a Patrícia Pillar, um casal de emigrantes brasileiros que estava na dúvida se continuaria nos Estados Unidos ou voltaria para o Brasil – apesar de o Brasil estar na merda -, eram muito boas. Eu não conseguiria manter o mesmo nível por 200 capítulos. (…) A história começou com um alto nível de dramaturgia e já estava vivendo de mulher botando gravador debaixo da cama da outra, intriga normal de novela de televisão. Foi um erro. Se eu tiver novamente um assunto como o de Pátria Minha, farei uma minissérie.”

Ao livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”, de André Bernardo e Cíntia Lopes, Gilberto Braga fez um balanço da novela:
Pátria Minha foi uma novela bem problemática. Só foi boa até, aproximadamente, o capítulo 80. Depois houve problemas demais. Terminar aquilo foi uma penitência!”

Elenco

Um dos destaques do elenco foi Marieta Severo, que deu vida à dissimulada e interesseira Loreta. A atriz explicou que chegou ao tom da personagem na cena em que ela pede ao seu copeiro “duas gotas e meia de adoçante”.

Por sua atuação em Pátria Minha, Marieta Severo foi eleita pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) a melhor atriz coadjuvante na TV em 1994 (juntamente com Zezé Polessa, pela minissérie Memorial de Maria Moura).
Tarcísio Meira – pela interpretação do vilão Raul Pelegrini – foi premiado com o Troféu Imprensa de melhor ator daquele ano.

Uma das sequências mais marcantes de Pátria Minha é a que Teresa (Eva Wilma) presencia a morte do filho, Gustavo (Kadu Moliterno), no hospital. Sobre esta gravação, a atriz narrou em sua biografia “Eva Wilma, Arte e Vida”:
“Várias circunstâncias contribuíram para que a fizéssemos tão intensamente bem-feita. Denis [Carvalho, o diretor], o bom amigo de muitos anos, tinha vivenciado a perda de um filho. O momento era delicado. O resultado tão comentado e tão bem sucedido se deu ao nosso ótimo relacionamento (Denis, Kadu e eu), ao fato de ‘Querida Mamãe’ já ter entrado em cartaz [a peça que a atriz fazia na época] e o texto ser primoroso. Eu me sentia com todas as ferramentas afiadas, capaz de mergulhar na mais intensa das emoções.”

Na cena em que Lídia Laport se levanta no meio da noite para tomar um banho de mar, nua, quem emprestou o corpo para a personagem foi Marta Moesch. A modelo já havia sido dublê de corpo de Vera Fischer na minissérie Riacho Doce (1990). (*)
Vera, por sua vez, já havia mostrado os seios na novela, em uma cena diante de um espelho.

Primeira novela dos atores Emílio de Mello, Cássia Linhares e Alexandre Morenno (anteriormente, ele havia feito pequenas participações). Também o primeiro dos raros trabalhos em televisão de Janaína Diniz, filha da falecida atriz Leila Diniz e do cineasta Ruy Guerra.

Cenografia e locações

Na cidade cenográfica do Projac, foi notável a reconstituição das favelas dos morros cariocas. As referências foram as comunidades de Borel, Dona Marta, Pavão Pavãozinho e Rocinha. Ocupando uma área de 3.500 metros quadrados, foram erguidas 60 casas de alvenaria, com interior, que contemplavam barbearia, birosca, ferro velho, salão de beleza e até um chiqueiro. A cidade cenográfica contava ainda com antenas parabólicas, esgoto a céu aberto, luz elétrica (que funcionava de verdade), vazamentos de água, sistema de alto-falantes e um lixão com quase uma tonelada de sujeira, além de símbolos da facção criminosa Comando Vermelho.

A 500 metros da favela foi construído o luxuoso Garnier Hotel, inspirado no Copacabana Palace, de calçamento com pedras portuguesas e asfalto de verdade em sua frente e decoração de estilo neoclássico francês dos anos 1920. O hotel de quatro andares contava, além da recepção, com piano-bar e casa de chá. Na entrada, uma pedra de 12 metros de largura, tombada pelo Ibama, passou por tratamento paisagístico e ganhou iluminação especial.
Por meio de computação gráfica, favela e hotel foram ampliados – o que fez com que o hotel parecesse ter 11 andares. (*)

Outro cenário de destaque foi a mansão de Raul Pelegrini (Tarcísio Meira), um imóvel de 1850, tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. Localizada em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, a casa tinha 14 quartos e um jardim francês, e, mediante autorização especial, teve suas estrutura e fachada reformadas para a produção. Os interiores da mansão formavam o maior cenário da novela, ocupando todos os estúdios da Tycoon. (*)
Ainda um casarão no bairro de Santa Teresa, datado de 1895, foi alugado para servir de fachada para a casa de Loreta (Marieta Severo), tendo sido submetido a um tratamento especial para, literalmente, pegar fogo. Na novela, com o incêndio, Loreta mudou-se com o filho e criados para a mansão do tio Raul.

A comunidade da novela foi “destruída” após os primeiros dez capítulos. O roteiro pedia que uma enchente desalojasse seus moradores. Para o temporal, a produção usou dez caminhões-pipa e uma maquete, preservando parte da construção para futuras produções. Os desabrigados foram alojadas em 17 casas geminadas, de alvenaria e telhado de amianto, de 40 metros quadrados, também erguidas na cidade cenográfica.

Uma equipe de 18 pessoas viajou para Nova York (EUA) para gravar as primeiras cenas da novela, que contaram com as participações dos atores José Mayer, Patrícia Pillar, Antônio Grassi, Bete Mendes e outros. Mayer e Grassi tiveram aulas de direção de limusine com um brasileiro que morava na cidade há anos. Entre os pontos turísticos de Nova York mostrados na tela, estavam o Central Park e a Ponte do Brooklin.

Quadros de diversos artistas plásticos brasileiros podiam ser vistos em diferentes cenários da novela. O decorador Edgar Moura Brasil – parceiro de Gilberto Braga – foi o responsável por selecionar as obras de Rubens Gerchman, Antônio Dias, Aluísio Carvão, Anna Bella Geiger, Roberto Magalhães, Wanda Pimentel, Victor Arruda, Glauco Rodrigues e Cícero Dias, entre outros. (*)

Abertura

Embalada pelo samba instrumental de exaltação ao Brasil “Onde o Céu é Mais Azul” – dos anos 1940, de autoria de Alcyr Pires Vermelho, Gilberto Ribeiro e João de Barro -, a abertura da novela trazia cem figurantes vestidos de azul, representando o povo brasileiro, caminhando por um labirinto verde e amarelo até avistarem uma luz branca. Ao segui-la, eles encontravam a saída, que nada mais era do que o círculo da bandeira brasileira. Ali eles se juntavam a 27 crianças que, vestidas de branco, representavam as estrelas da bandeira.

O principal efeito ficou por conta do labirinto, que se transformava na bandeira do Brasil. Formado por 230 peças de madeira, ele era posteriormente substituído por uma maquete, que dava a sensação de que havia diminuído. Isso para possibilitar que a câmera se afastasse do labirinto até enquadrá-lo do alto.

A direção da abertura foi de Nilton Nunes, da Videographics. A diretora Cininha de Paula colaborou na realização, ensaiando e conduzindo os figurantes na caminhada pelo labirinto. (*)

A então candidata a atriz Taís Araújo e a então modelo Ana Furtado surgiam rapidamente entre as várias pessoas no labirinto da abertura de Pátria Minha.
O primeiro trabalho de Taís Araújo como atriz foi no ano seguinte, 1995, na novela Tocaia Grande, na TV Manchete. Ana Furtado apareceu ainda na abertura da novela Explode Coração, em 1995, para em seguida estrear como atriz, em Cara e Coroa.

E mais

A novela foi disponibilizada no Globoplay (plataforma streaming do Grupo Globo) em 09/10/2023.

* Site Memória Globo.

Trilha sonora nacional

01. A NOVIDADE – Gilberto Gil (tema de Alice)
02. VOCÊ – Maria Bethânia (tema de Alice e Rodrigo)
03. PARTNERS – Cássia Eller (tema de Rodrigo)
04. RAZÃO DE VIVER – Emílio Santiago (tema de Max e Marininha)
05. DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS – Caetano Veloso (tema de Lídia e Pedro)
06. O AMOR DORME – Paralamas do Sucesso (tema de Nando)
07. ERRÁTICA – Gal Costa (tema de Natália)
08. BEATRIZ – Milton Nascimento (tema de Beatriz)
09. FALANDO DE AMOR – Edu Lobo (tema de Teresa)
10. NADA A PERDER – Danilo caymmi (tema de Lídia)
11. HAITI – Caetano e Gil (tema do núcleo dos pobres)
12. IMAGENS – Guido Brunini (tema de Cilene)
13. SURF BOARD – Tom Jobim (tema de locação: Rio de Janeiro)
14. ONDE O CÉU AZUL É MAIS AZUL – Felicidade Suzy (tema de Pedro)
15. ONDE O CÉU AZUL É MAIS AZUL – instrumental (tema de abertura)

Sonoplastia: Aroldo Barros
Produção musical: Roger Henri
Direção musical: Mariozinho Rocha

Trilha sonora internacional

01. ALL BY MYSELF – Sheryl Crow (tema de Alice e Rodrigo)
02. SHE’S BEAUTIFUL – Double You (tema de Natália)
03. I’LL MAKE LOVE II YOU – Boyz II Men (tema de Pedro e Isabel)
04. GAMES PEOPLE PLAY – Inner Circle (tema de locação: Rio de Janeiro)
05. BREATH AGAIN – Toni Braxton (tema de Raul e Cilene)
06. RETURN TO INNOCENCE – Enigma (tema de Isabel)
07. NE ME QUI TE PAS – Ângela Ro Ro (tema de Loreta)
08. EVERYBODY – D.J. Bobo (tema de locação: boate)
09. MMM MMM MMM MMM – Crash Test Dummies (tema de Heitor)
10. SWEET DREAMS – La Bouche
11. SEND IN THE CLOWNS – Renato Russo (tema de Max e Marininha)
12. PER LEI – Riccardo Cocciante (tema de Lidia)
13. STATE OF THE HEART – West End Girls (tema de Yone)
14. UNDER THE ILLUSION – Peter Valentine (tema de Raul e Lídia)

Seleção de repertório: Sérgio Motta

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