Nilson Xavier – 08/05/2020 13:00.

Daniel Adjuto e Regina Duarte (foto: CNN/reprodução)

Quem trabalha com cultura, artes e entretenimento ficou estarrecido com a desastrosa entrevista da secretária de Cultura Regina Duarte à CNN, na tarde dessa quinta-feira, 07/05. Não pelas defesas ideológicas ao governo Bolsonaro, o que é de conhecimento geral. Mas pela comprovação de sua total incapacidade de ocupar o cargo que lhe foi confiado. Pelo menos aos olhos da classe artística que ela tenta representar.

Durante a entrevista, Regina mostrou-se completamente perdida, fora da realidade e alienada dos assuntos que realmente interessam para o setor nesse momento. Não bastasse isso, uma enxurrada de declarações infelizes sobre temas sensíveis ao povo brasileiro, revelando sua face obscura e a total falta de empatia para defender a classe que representa. É o pior papel que Regina está desempenhando: o dela mesma. Um papelão.

A entrevista (aos jornalistas Daniel Adjuto, em Brasília, e Reinaldo Gottino e Daniela Lima, em São Paulo), iniciou-se de forma amena. A secretária começou justificando porque resolveu conceder à CNN a primeira entrevista depois da reunião com o presidente Jair Bolsonaro. Primeiro porque foi bajulada por Caio Copolla (funcionário da emissora e bolsonarista), que lhe presenteou com um poema. Depois explicou que a CNN é uma emissora imparcial, que mostra os dois lados, por ter “essa colocação tão democrática, tão limpa, bonita de ter sempre duas posições“, disse ela.

Ao fim da entrevista Regina Duarte deve ter mudado completamente sua opinião sobre a CNN.

Os entrevistadores conduziram a celeuma da melhor forma possível. A pauta era abrangente: a permanência de Regina no governo e sua reunião com o presidente; as críticas de Sergio Camargo e de Olavo de Carvalho e a resistência sobre ela por parte de uma ala do governo; a nomeação de Dante Mantovani; o áudio vazado publicado pela revista Crusoé; a cobrança de pronunciamentos sobre as mortes de artistas; as críticas de Paulo Betti sobre ela estar no governo Bolsonaro e de Maitê Proença sobre a secretaria; a saída de Sergio Moro do governo; o que a faria abrir mão da secretaria de cultura; e o que foi feito de emergencial para a classe artística nesse momento de pandemia.

Regina foi respondendo as perguntas, tentando se explicar, sem muito sucesso. Demonstrou total falta de tato, traquejo e eloquência. Foi se embananando, desviando do assunto. Em vários momentos, deu respostas vagas e tentou se esquivar. Por mais da metade do tempo, mostrou-se solícita, porém a impaciência foi lhe tomando conta. Não parecia muito disposta com as perguntas, estava mais preocupada em mostrar a cola com suas atividades na secretaria.

Provavelmente Regina achava que continuaria a ser bajulada. Não foi. Em São Paulo, Reinaldo Gottino e Daniela Lima intervieram várias vezes, cobrando da secretária melhores respostas e posicionamentos. Isso foi irritando Regina.

Questionada a respeito dos pronunciamentos sobre as mortes de artistas, Regina mostrou desconhecer que essa é uma de suas atribuições e que era o mínimo que poderia ter feito. E fez pouco caso das cobranças: “Será que eu vou ter que virar um obituário? Tem pessoas que eu não conheço. O país já está cultuando a memória [deles] não precisa da secretária da cultura” – mesmo quando lembrada por Daniela Lima que o presidente sempre externa condolências pelas mortes de artistas que o apoiam.

Um dos momentos mais tensos foi quando Regina tentou justificar seu apoio a Bolsonaro: “[as pessoas falam] ‘Ah, mas ele fez isso, fez aquilo’ Eu não quero ficar olhando pra trás. (…) Ficar cobrando coisas que aconteceram nos anos 60, 70, 80… Gente, vamos olhar pra frente!” E cantou um trecho de uma das músicas-símbolo do período da Ditadura, da Copa de 1970: “Pra frente Brasil, salve a seleção!” E deu uma gargalhada.
Daniel Adjuto olhou sério para ela e retrucou: “Esse foi um período muito difícil, muita gente morreu na ditadura.
Regina: “Cara, desculpa! Na humanidade não para de morrer gente! Se fala vida, do lado tem morte. Por que as pessoas OHHHHHH!?
Adjuto: “Porque houve tortura, secretária!
Regina: “Sempre houve tortura. Stalin, quantas mortes! Hitler, quantas mortes!
Adjuto: “Que poderiam ser evitadas por essas ideologias extremas.
Regina: “Não! Não quero arrastar um cemitério nas minhas costas! Sou leve, sabe! To viva! Porque olhar pra trás? (…) Acho que tem uma morbidez nesse momento. A Covid está trazendo uma morbidez insuportável. Isso é perigoso para a cabeça das pessoas.

Assim, depois de ter relativizado a Ditadura e suas mortes, Regina Duarte minimizou as mortes por coronavírus. Na sequência, a secretária deu mais mostras de estar fora da realidade e de viver em uma bolha: “Sou uma pessoa que ama a cultura, ama o setor, apesar de saber que tem uma minoria que não gosta de mim. Mas é só uma minoria. O setor gosta de mim, O SETOR ME AMA. A minoria é uma minoria gritalhona, deixa ela pra lá.

O ápice do horror foi quando Daniela Lima, em São Paulo, colocou no ar um vídeo gravado para a ocasião com uma declaração da atriz Maitê Proença, que criticava o trabalho da secretaria e que cobrava um diálogo. Regina perdeu a compostura. Ficou reclamando e negou-se a ouvir Maitê, julgando que se tratava de um outro vídeo.

A secretária explodiu: “Tá desenterrando a mensagem da Maitê pra quê? O que você ganha com isso? Quem é você?“, direcionando-se a Daniela.
E com pescocinho pendendo para um lado, finalizou: “Vocês estão desenterrando mortos! Vocês estão carregando um cemitério nas costas. Vocês devem estar cansados…
Daniela argumentou: “Secretária, o país perdeu 615 pessoas por Covid-19, dentre elas alguns artistas. Nós não estamos desenterrando mortos, nós estamos enterrando uma série de brasileiros, dentre eles alguns de seus colegas.
Mais algumas reclamações de Regina e a entrevista encerrou-se com uma mão tentando cobrir a câmera e o retorno para os jornalistas em São Paulo.

Parece que Bolsonaro encontrou em Regina Duarte a pessoa ideal para ocupar a Secretaria da Cultura – se considerarmos a total falta de apreço do presidente com a Cultura, Artes, Educação e Ciências do país. Com esse episódio, a ex-atriz deixa claro que segue a cartilha dele: não quer ser questionada, cobrada ou confrontada. Apenas a bajulação lhe interessa. Passou recibo da versão feminina do E DAÍ e do CALA A BOCA de Bolsonaro.

Para quem cobre e ama TV, e admira o trabalho de técnicos, artistas e profissionais, isso é extremamente doloroso. Cresci admirando-a como atriz, mas a total falta de sensibilidade com a realidade é chocante e ultrajante e mancha toda a sua carreira. Regina Duarte não representa a cultura brasileira. No máximo representa Bolsonaro, ao servir seus interesses, como uma figura alegórica e patética na Secretaria da Cultura, onde lava as mãos. Naquela bacia de sangue citada no vídeo de Lima Duarte sobre a morte de Flávio Migliaccio. Lamentável ocaso de uma estrela.

Assista abaixo à entrevista na íntegra.

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