Paolla Oliveira e Lee Taylor em A Dona do Pedaço (foto: Fabiano Battaglin/TV Globo)

Em três semanas, estive na coletiva de imprensa de duas novas séries lançadas pelo Globoplay: Aruanas e A Divisão. É notório o esforço da Globo na produção de séries de alta qualidade para competir com Netflix e outras plataformas de streaming. Apesar dos vários títulos nacionais lançados nos últimos dez anos, pelos mais variados canais de TV aberta e fechada, parece que agora é o momento em que surge um número expressivo de produções para fazer frente às “gigantes do streaming“. A TV brasileira acordou para essa nova realidade.

Chama a atenção não só a quantidade, mas também a qualidade dessas produções. Globo/Globoplay lançaram, desde 2017, as ótimas Sob Pressão, Filhos da Pátria, Carcereiros, Assédio, Ilha de Ferro (ótima pelo menos na produção), Cine Holliúdy, Shippados, Aruanas e A Divisão (estreia sexta, dia 19/07, no Globoplay). Entra também nesse bojo a excelente supersérie Onde Nascem os Fortes, do ano passado.

Em contrapartida, as novelas parecem estagnadas na contramão. A qualidade dos textos das novelas da Globo é inversamente proporcional à das séries que a emissora vem lançando. E isso vem acontecendo há mais de um ano. Na edição 2018 do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte, da qual faço parte), concluiu-se que novela alguma exibida nesse ano merecia ser premiada. Foi então criada a categoria “programa de dramaturgia“, na qual séries como Assédio e Sob Pressão foram indicadas. A vencedora foi a supersérie Onde Nascem os Fortes.

Preciso citar (antes que me cobrem) duas boas novelas da safra 2018-2019, Orgulho e Paixão e Espelho da Vida: ainda que imperfeitas, apresentaram mais qualidades que defeitos.

Silvio Guindane em A Divisão | Kay Sara e Débora Falabella em Aruanas (foto: divulgação/Globoplay)

Como é possível com tantas ótimas opções em streaming, a Globo insistir em novelas com textos rasos que subestimam a inteligência do público? A última “grande novela”, que conseguiu burlar a cilada da narrativa “for dummies” – como costumo chamar a narrativa fácil, meramente escapista, que exige nada do público a não ser a passividade – foi “A Força do Querer“, em 2017. A trama de Glória Perez teve lá seus problemas, claro, mas foi muito além do entretenimento fácil ao chamar a atenção para questões da atualidade com uma narrativa envolvente e personagens de várias camadas, aliando sabiamente temas para reflexão com o bom e velho folhetim.

Sempre defendo que há espaço para todo tipo de dramaturgia (entenda, todo gosto). Desde a novela infantil do SBT até a bíblica da Record. Topíssima, na Record, é um bom exemplo de folhetim que, sem gigantismo ou grandes pretensões, cumpre muito bem o que se propõe. Há inclusive espaço para o humor nonsense descompromissado de Verão 90, da qual não se espera mais do que personagens caricatos e a trama sem muita coerência: é um estilo e atende uma parcela do público interessada em consumi-lo. Vamos portanto excluir Verão 90 dessa análise considerando que ela já cumpre a cota “novela para escapismo“.

O problema é quando tramas que subestimam o público passam a ser uma constância. Fico impressionado, até mesmo temeroso, com o fato de as três novelas atuais da Globo apresentarem narrativas que parecem zombar do telespectador. Deus nos livre disso ser uma tendência!

Juliana Paes e Agatha Moreira em A Dona do Pedaço (foto: divulgação/TV Globo)

A Dona do Pedaço nem parece uma novela apropriada para o horário mais nobre, das 9 da noite. A trama rasa de Walcyr Carrasco (um remendo do mais batido que já se viu na obra do autor e de outros autores) ignora o mínimo de coerência e verossimilhança exigidos para suprir sua proposta realista. Começou empolgante, nas primeiras fases, apresentando uma protagonista com tutano – Maria da Paz/Juliana Paes – para transformá-la em seguida em uma grande parva tão somente para justificar a trama inconsistente da novela.

Órfãos da Terra revelou-se uma grande decepção. Em nada lembra a primeira fase, na qual brilharam os personagens de Herson Capri e Letícia Sabatella. A vingança sem sentido da vilã Dalila (Alice Wegmann) só transformou a personagem em uma caricatura de vilã de novela turca. A mão pesada no melodrama remete às novelas de Glória Magadan dos anos 1960. “Eu serei um prisioneiro seu!“, disse o mocinho no capítulo de segunda-feira sentindo-se obrigado a casar com a vilã que ameaçou a sua família. Não sei o que é mais ultrapassado, a fala do personagem ou a situação em que ele se encontra.

Isso sem falar da barriga que acometeu a novela – a enrolação na trama. O que desandou? Era tão boa no início… Lembra O Tempo Não Para, no ano passado, em que não havia trama suficiente para mais de 3 meses de duração.

Renato Góes e Alice Wegmann em Órfãos da Terra (foto: divulgação/TV Globo)

Estamos tratando de novelas sem estofo na forma e no conteúdo. Em 2019, com séries bombando por todo lado, era de esperar que as novelas competissem no mesmo nível. Logicamente são formatos distintos, não se está aqui usando o folhetim para um mesmo peso e medida. O que sempre condeno: série não é melhor que novela, porque são diferentes – é como afirmar que “abacaxi é melhor que mamão e ponto final”. Contudo, é pedir demais ao menos uma novela na grade que não subestime a inteligência do público?

Pelo andar de 2019, vamos esperar as próximas produções da Globo – Bom Sucesso, Éramos Seis e Amor de Mãe – para saber se conseguem escapar da cilada da narrativa “for dummies“. Caso contrário, as novelas vão merecer ficar novamente fora de algumas premiações do ano.

PS: Em 2019, não era mais para os autores de novelas provocarem esse tipo de “catarse machista“: macho traído que humilha a noiva no altar diante de todos (foto lá em cima, de A Dona do Pedaço). Houve a mesmíssima cena em Segundo Sol, ano passado, e – pior – recentemente, em Verão 90. Novelas deveriam acompanhar a evolução da sociedade, dar o exemplo e trazer frescor, e não retroceder.

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